Mostras apontam relevância de José Antônio da Silva para o Brasil

Duas exposições com obras do artista estão em cartaz simultaneamente em São Paulo, na Galeria Estação e no MAC USP, totalizando mais de 150 obras

por Felipe Pessota
11 minuto(s)

José Antônio da Silva, “Algodoal com troncos decepados”, 1975

Os intelectuais Paulo Mendes de Almeida, Lourival Gomes Machado e João Cruz Costa foram de São Paulo para a cerimônia de abertura da  Casa de Cultura de São José do Rio Preto, em 1946, para avaliar e premiar os melhores artistas que compunham a mostra de inauguração, e tiveram uma grande surpresa ao se deparar com a obra de José Antônio da Silva. Um deles soltou até “pintor à vista”.

A partir desse momento, o artista ganhou os corredores de inúmeras Bienais de São Paulo, o reconhecimento de seus pares e criou também animosidades com outros tantos. 

Com histórias e temas muito particulares e ainda assim universais, as obras do artista se mostram relevantes para pensar a produção moderna e artística do século 20 e a longevidade de seu trabalho no presente. No alto de sua confiança, ele se apresentava “Eu sou o Silva”.

Esse, inclusive, é o nome de uma de duas exposições que estão em cartaz simultaneamente na cidade de São Paulo. “Eu Sou o Silva” fica na galeria Estação até 23 de dezembro deste ano e “José Antônio da Silva: Pintar o Brasil”, Museu de Arte Contemporânea (MAC USP), permanece até 15 de março de 2026.

José Antônio da Silva, “Boaida descansando no mangueirão”, 1956

Na galeria Estação, a mostra homenageia o artista com obras do próprio acervo e de diversos colecionadores. Já o MAC USP recebe exposição apresentada na França, com acréscimo de outras 15 pinturas e desenhos, totalizando 142 obras.

Juntas, essas duas exposições tentam dar conta da prolífica produção de José Antônio da Silva, considerado por muitos um dos maiores nomes da arte moderna brasileira e por ele mesmo um dos três maiores da história, ao lado de Van Gogh e Picasso. 

O artista visual Paulo Pasta, que atua como curador da mostra “Eu Sou o Silva” na galeria Estação afirmou em entrevista ao AQA que o artista “entende o progresso da própria obra. O que o Silva quer é resolver o quadro, é resolver a pintura. Silva não era o verossímil. O Silva era o verdadeiro.”

José Antônio da Silva, “Autorretrato”, 1973

Estão contemplados temas de interesse do artista, como a vida no campo e seu cotidiano, influenciado por sua origem rural, e que são também registros do processo de modernização vivido no Brasil ao longo do século 20. Dentre seus temas recorrentes estão espantalhos, algodoais, gado, cenas de chuva (algo pouco usual na tradição da pintura ocidental) e religiosas. Na mostra no MAC Usp também é possível conferir as notáveis e famosas pinturas dos ‘enforcados’ da Bienal e outros trabalhos com frases escritas em crítica direta a sua exclusão do evento, mesmo tendo participado das edições em 1951, 1953, 1955, 1961, 1963, 1965 e 1989.

Após ter passado pelo Musée de Grenoble (FR), como parte da Temporada Brasil-França 2025, em abril, e pela Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre (RS), em agosto, o conjunto de obras no MAC USP presentifica Silva.

“Um dos debates dos últimos anos: quem tem direito de levar uma bandeira brasileira nas costas? O Silva já estava falando sobre isso. Esse interesse que o Brasil não é a cidade, as elites metropolitanas, mas o povo que vive na terra”, contou Gabriel Pérez-Barreiro, curador da mostra “José Antônio da Silva: Pintar o Brasil”, ao AQA.

A conversa com os curadores Paulo Pasta e Gabriel Pérez-Barreiro rendeu. Confira a entrevista:

AQA: Como a gente encontra a obra do artista à luz nos dias de hoje? 

Paulo Pasta: A nossa sociedade, o nosso tempo, a nossa época, está mais preparada para ver e entender o Silva. Inclusive dentro de um museu. Inclusive se ele sair do nicho dado aos artistas primitivos, ingênuos, ditos assim. O Silva colocado junto, como já vi aliás em museus, aos pintores modernistas, faz o maior sentido.

Mas na época quando ele surgiu, quando foi descoberto, parecia que não. O Brasil não tinha atingido ainda uma plena assimilação maior do modernismo, do fenômeno moderno, da arte moderna. A arte ainda estava muito entregue a práticas acadêmicas.

Mesmo o salão onde o Silva foi descoberto era um salão para arte acadêmica. Ele se inscreveu no Salão de Belas Artes de Rio Preto. E claro que o salão era dedicado à produção local, regional e de arte acadêmica. Essa ideia de uma pintura que carrega consigo a ideia do bem acabado, do perfeito, do verossímil.

E o Silva não era o verossímil. O Silva era o verdadeiro. A sorte dele foi essa, que o júri dessa vez foram três intelectuais de São Paulo e que puderam perceber, como falaram, dentro daquela traquitana acadêmica, um valor original, um valor verdadeiro. O Paulo Mendes de Almeida chega no hotel e diz para os outros “pintor à vista”. Quiseram dar o primeiro prêmio para o Silva, mas o organizador do salão não deixou, dizendo que iriam causar com isso uma polêmica na cidade. Enfim, porque ninguém ia entender. Deram ao Silva o terceiro lugar, mas conseguiram levar o Silva para São Paulo. Começou a vida artística dele até se transformar nos maiores pintores brasileiros.

O Silva transcende, nesse momento, o seu meio social. Digo sempre que essa é uma das histórias mais bonitas do Brasil, sociologicamente e artisticamente. Quer dizer, naquele momento, anos 1940, qual era a possibilidade de um pobre ex-trabalhador do campo, agricultor, operário, transcender seu meio social? 

O que seria um primitivo, então? Porque o Silva, pelo que eu entendo de trabalho de arte, de pintura, por exemplo, tem uma relação com a obra que é uma relação de permanente descoberta. O passado do qual ele vive, ou seja, lembranças o tempo inteiro? O passado é invenção viva, permanente. É fabulação, é transformação. Mesmo o trabalho dele tem permanente transformação.

Isso não tem nada a ver com ingenuidade nem primitivismo. Ele não é um simples documentarista, não faz um registro daquilo que foi a vida dele no campo, nada disso. Mas ele não separa forma e conteúdo. 

Ele entende o progresso da própria obra. Ele entende o Volpi. O que o Silva quer é resolver o quadro, é resolver a pintura. E isso é muito moderno. Ele tem uma consciência muito aguda da realização pictórica. Ele foi amigo do Volpi. A única pintura que o Volpi tinha dentro do ateliê era uma natureza morta do Silva. 

Essa questão do modernismo brasileiro e do moderno em geral, que é trazer a pintura para o plano. E anulando as profundidades, trabalhando no plano. E as formas se tornando ambíguas. No Volpi, por exemplo, você não sabe se aquilo lá era um telhado ou é um quintal de uma casa.

Você vê a bandeirinha, mas você vê um triângulo também, junto com a bandeirinha. Essa gestalt entre as coisas, essa espécie de criação de uma ambiguidade que faz a gente ver, enfim, de uma maneira completa. E o Silva tem isso. 

Ele submete tudo, não só um registro puramente visual, mas há uma criação a partir das formas que ele está empregando. Por isso que ele repete muitos temas também. Porque, enfim, quando você repete o tema, você não está interessado no registro puramente e no documento. Portanto, é uma distância entre documentar e criar.

AQA: Essa é a sua segunda curadoria na Galeria Estação das obras do trabalho do Silva. O que o público pode nas obras do Silva?

Paulo Pasta: A exposição não tem a pretensão de fazer uma historiografia, nem de colocar os quadros em sentido cronológico. Ela contempla, sim, vários dos temas, dos motivos e épocas do Silva. Tem pinturas da década de 1940 até a década de 1980, variando os temas. Fiz uma montagem privilegiando as famílias, agrupando os motivos. Por exemplo, a mata derrubada sendo substituída pela lavoura plantada.

Esse eu acho que é um tema central do Silva. E nesse sentido, o Silva se transformou no grande intérprete da metamorfose da paisagem rural brasileira. A mata sendo substituída pela lavoura. Tem o espantalho. Por exemplo, ele pintou muito espantalho. Que pra mim, tem um sentido simbólico muito forte. É um espantalho ou é um homem fazendo o papel de espantalho? Ali são as duas coisas, simbolicamente. É o trabalhador no campo, exilado da sua cultura, do seu lugar de origem. Substituído também pelas tecnologias, perdendo sua cultura local. Se transformando numa espécie de simulacro humano. Quase trágico. Assim como as paisagens. Que, na verdade, seriam anti-paisagens. Nesse sentido de que a mata acabou e está sendo substituída. Tem ali uma encenação da vida e da morte. Desse eterno vir, surgir, desaparecer, que é o que é a vida, enfim.

Outro conjunto ali são das naturezas mortas. Uma tem os mamões. Os mamões, onde ele corta o mamão, retira uma fatia do mamão e deixa a faca presente. É muito singular. Não tem nada de still life, como a gente entende pela nomenclatura inglesa. É pura transformação. Representa um homem que plantou, colheu, cortou e comeu o mamão. É uma operação plena. Está em pista a lógica do trabalhador. A lógica de quem entende o mundo como um ritmo produtivo. 

AQA: Poderia falar sobre o título da exposição Sou Silva, ainda mais do momento que a gente vê do censo do IBGE de 2022, em que Silva é o sobrenome mais comum da população brasileira. 

Paulo Pasta: “Eu Sou Silva” tem esse sentido, porque quando você fala “Eu Sou Silva”, você também está em primeira pessoa. E ele repetia isso, elevando esse sobrenome tão popular e, às vezes, por ser popular, tão comum e tão pouco distinguindo quem é quem a um lugar de qualificação. A história dele é muito bonita por significar essa possibilidade de uma mudança social. Outra história linda de outro Silva é do Lula, por exemplo. Que, por sua vez, como político, está tentando promover no Brasil a possibilidade de que as pessoas consigam não ficarem eternamente condenadas à classe social que nasceram.

E o Silva não tem nada de panfletário. Você retira esses conteúdos, essa compreensão, a partir de uma criação poética. Porque o Silva não pintava frente ao motivo.

Como Cezanne, ele lembrava, trabalhava em casa. Geralmente, colocava um disco de música caipira para ajudar a criar o ambiente. Acredito que esse é o momento em que Silva pinta, tanto a sua plenitude, quanto a lembrança plena ainda de uma vida coesa e íntegra, que depois já está sendo substituída pela ideia de progresso. E acho que o Silva não vê com bons olhos o progresso. Não sei se dá para falar em nostalgia do Silva, mas a pintura dele te faz acordar para esse mundo que permanentemente se vai, porque é tudo lembrança. Ele vive do que foi.

Mas a pintura obedece a um ritmo criador permanente. Quer dizer, o que eu quero dizer é que nenhum tipo de nostalgia paralisa ou compromete a noção do progresso e do dever da própria obra.

AQA: Poderia começar desse “pintor à vista”, da primeira vista que o público teve de José Antônio da Silva. Como é possível ver o Silva à luz de hoje? 

Gabriel Pérez-Barreiro: Temos várias respostas a essa pergunta. Uma é que agora está muito na pauta descobrir pessoas marginais. No caso do Silva, é isso e não é isso. Ele foi, na época, um dos pintores brasileiros do século 20 mais expostos, mais bem-sucedidos, mais apoiados. Ele está no início deste museu aqui, o MAC, que era o Museu de Arte Moderna, nas primeiras bienais, ganhando prêmios.

Não dá para dizer que ele foi sempre um artista marginal, assim, sofrendo preconceito. Agora, certamente, a partir da Bienal que é rejeitado, ele vive isso com uma profundidade absoluta e se coloca como vítima, que de alguma forma era. Penso que ele achava que ia participar até o dia em que morresse. Também não é assim. As coisas mudam. Então, por um lado, você tem esse resgate, entre aspas, de um artista que foi muito relevante, muito conhecido, depois caiu numa certa invisibilidade. Ao mesmo tempo, ele foi muito apoiado por alguns. Ele também foi bem colecionado, tem coleções com centenas de trabalhos. É uma figura ambígua, porque não é nenhuma coisa nem outra, são muitas. 

Depois, uma coisa que me chama muita atenção quando se vê esses trabalhos, é como ele fala do Brasil, como apropria toda essa ideia verde e amarela. A bandeira do Brasil aparece inúmeras vezes. Ele fala, “eu sou o Brasil, eu sou a voz do Brasil, eu sou o único que entende a beleza do Brasil”.

Preparando a exposição, vem, o pensamento que isso pode ser hoje, essa apropriação da bandeira, por exemplo. Um dos debates na política brasileira dos últimos anos, quem tem direito de levar uma bandeira brasileira nas costas? O que isso significa? Ele já estava falando sobre isso. Esse interesse que o Brasil não é a cidade, as elitismos metropolitanas, mas o povo que vive na terra.

Seja o Amazonas, seja a cultura caipira, seja a questão da diversidade, a questão da ecologia, da importância da natureza na vida das pessoas. É impressionante. Ele parece um artista contemporâneo há um século.

Ele já estava colocando todas essas questões. Eu sou inimigo do presentismo, que toda arte tem que estar no presente, mas isso está mesmo no presente. Eu acho que essa questão para quem está na Bienal, quem está excluído, quem tem o direito de definir que deve ser uma bienal brasileira, deve ser internacional, deve ser africana, deve ter temas ecológicos.

AQA: E sobre a relação com a Bienal?

Gabriel Pérez-Barreiro: É muito engraçado, porque o Silva escreve na obra “na Bienal de 1957 faltou uma assinatura de um miserável brasileiro, falso, que foi contra o Brasil. Até Deus se sentiu ofendido”. Ele fazia muito isso. Quando é uma ofensa pessoal, ele levava para o cosmos. Ele pinta uma bandeira brasileira e o capeta está lá embaixo no inferno.

Acho de novo, esse debate tão atual, porque na época a Bienal era um jeito do Brasil se internacionalizar, trazer a arte americana, francesa, um mecanismo de diálogo com o resto do mundo. E com o tempo vai se mudando as características.

Penso que o Silva se sentiria muito, talvez, engajado nesse debate, hoje, porque sentia que é uma instituição brasileira que dava as costas para o Brasil, o Brasil autêntico, que para ele era o Brasil do interior, o Brasil caipira, o Brasil mais popular, com muitas tradições populares. Interessante também é que o artista popular, no imaginário, tem que ser uma pessoa humilde, uma pessoa agradecida com a vida, e ele não era, ele brigava com as pessoas. Politicamente, essa atitude é interessante, porque não aceita deixar que as coisas aconteçam, ele fazia acontecer, determinava os termos, e hoje chamaríamos de agência no sistema da arte. E isso sendo um artista, em primeiro lugar, sendo um caipira analfabeto, em segundo lugar.

São dois lugares nos quais o artista geralmente está em um lugar passivo, ou tem sorte ou não. E ele não. Não conheço muitos outros casos em que o artista tenha essa segurança em si mesmo. O Silva tinha esse ego muito saudável, difícil. Ele xingava as pessoas com muita facilidade, o que também fala do momento político atual, que tem muita essa revolta dos silenciados, e é revolta mesmo, é desconforto, de não aceitar quem te representa, de tentar quebrar um pouco essa estrutura. Então, de novo, acho que ele traz uma questão muito atual.

Serviço:

“José Antônio da Silva: Pintar o Brasil”
Curadoria Gabriel Perez-Barreiro
Museu de Arte Contemporânea de São Paulo – MAC USP
Endereço: Av. Pedro Álvares Cabral, 1301
Horário de funcionamento: terça-feira a domingo, das 10h às 21h
Período expositivo: 15 de novembro a 15 de março de 2026
Entrada gratuita

“Eu sou o Silva”
Curadoria Paulo Pasta
Galeria Estação
Endereço: Rua Ferreira de Araújo, 625 – Pinheiros-SP
Horário de funcionamento: terça a sexta-feira – 11h às 19h | sábados: 11h às 15h
Período expositivo: 13 de novembro a 23 de dezembro
Entrada gratuita

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