Letras de barcos da Amazônia viram patrimônio imaterial do Pará

Prática centenária dos abridores de letras, que surgiu em 1925 por exigência da Capitania dos Portos e evoluiu para linguagem visual própria, ganha proteção oficial após mais de 20 anos de mobilização

Foto: Nailana Thiely

O que começou como uma exigência burocrática virou arte. Em 1925, a Capitania dos Portos tornou obrigatória a identificação pintada das embarcações no Pará. Com o tempo, a função administrativa deu origem a uma linguagem visual singular: letras ornamentadas, cores vibrantes e estilos desenvolvidos por artistas autodidatas que transmitem seus saberes de geração em geração. Agora, esse ofício é oficialmente patrimônio cultural imaterial do estado.

A lei foi publicada nesta quinta-feira no Diário Oficial do Pará, por iniciativa do deputado estadual Carlos Bordalo. O reconhecimento vem depois de mais de duas décadas de trabalho do Instituto Letras que Flutuam, organização dedicada à pesquisa e preservação da cultura gráfica ribeirinha amazônica. Fundada formalmente em 2024, mas atuante desde 2004, a instituição já mapeou mais de 130 abridores de letras em municípios paraenses e desenvolve ações de documentação, formação e orientação sobre direitos autorais para esses mestres.

Nos últimos anos, as letras de barcos migraram dos rios para murais urbanos, campanhas, produtos e eventos nacionais de design, consolidando-se como uma das principais referências da identidade visual paraense. Apesar da projeção crescente, os artistas que mantêm viva a tradição ainda enfrentam desafios para garantir sua continuidade. “Esperamos que esse reconhecimento seja um passo importante para a construção de políticas públicas que fortaleçam esses mestres”, disse Fernanda Martins, fundadora e diretora do instituto.