
No Dia do Grafite, celebrado em 27 de março, São Paulo volta os olhos para uma linguagem que nasceu como intervenção marginal e se tornou símbolo oficial de sua identidade cultural. A data homenageia Alex Vallauri, artista etíope naturalizado brasileiro, pioneiro do grafite no país, morto em 27 de março de 1987; um ano após sua morte, amigos ocuparam com sprays o túnel da Avenida Paulista, gesto que ajudou a fixar o dia como referência nacional para a arte urbana. Hoje, leis municipais e estaduais, exposições e celebrações em diferentes bairros reforçam o lugar do grafite não só como expressão estética, mas como voz política e periférica que reconfigura a paisagem da metrópole.
A comemoração ganha um capítulo especial com a inauguração do Nucle1 – Centro Integrado de Artes, idealizado pelo artista Enivo em um prédio de oito andares e 1.500 m² na Rua Muniz de Souza, 809, na Aclimação. Grafiteiro, educador e um dos nomes mais atuantes da cena paulistana, Enivo concebe o espaço como um campo gravitacional para a arte contemporânea, inspirado em experiências como a Bauhaus e a Factory de Andy Warhol, onde arte, pensamento e experimentação convivem como forças de transformação cultural.
A partir de 28 de março, o Nucle1 abre as portas com a mostra “Ato Inaugural – A Nova Órbita”, que ocupa todos os andares do edifício com mais de 50 artistas de múltiplas linguagens – da pintura mural à escultura, do design à performance, passando por moda, música, dança e circo –, além de uma programação de cursos, talks, palestras e mentorias voltada à formação e ao pensamento crítico. Com entrada gratuita e vocação multidisciplinar, o espaço inscreve o espírito do Dia do Grafite em um novo endereço paulistano: um centro que nasce da rua e retorna a ela em forma de laboratório permanente para a cultura urbana.