Com uma enxurrada de tecidos em tons de azuis, cinzas e branco, não é difícil perceber a cascata de desenhos ondulantes que atualmente habitam o Octógono da Pinacoteca de São Paulo. Desde as extremidades, que contam com formas que se assemelham a mãos – que almejam o inalcançável – e a barbatanas – que parecem nadar sem atingir lugar algum –, o que chega é o som do mar. No centro do museu, vive um conjunto de elementos que, compartilhando da mesma gramática material e formal, constituem duas cenas distintas e entrelaçadas.
Acontece que a espacialidade da instalação A mãe contempla o mar, de Cristina Salgado, produz um mundo onírico, mais do que real. O sonho, teorizou Freud, é uma das principais vias de acesso ao inconsciente. Nele revivemos e reprocessamos em imagens aquilo que se encontra represado e que só pode ser acessado a partir dos deslocamentos e condensações simbólicas de quando, ao fechar os olhos, acessamos a esfera do invisível. Tal reino se organiza em lógica própria que permite, inclusive, a coexistência de cenas distintas, tais como aquelas que formam os núcleos escultóricos armados na instalação.