
A 61ª Bienal de Veneza abriu em 9 de maio sem júri, sem Leão de Ouro e no meio da crise política mais intensa da sua história recente. Agora enfrenta também a ameaça de um processo judicial coletivo.
Mais de cem artistas participantes da edição afirmaram que tomarão medidas legais caso seus nomes não sejam retirados da cédula do Visitors Lions, prêmio criado pela organização para ser votado pelo público em geral. O problema: quando a exposição abriu em 14 de maio, os visitantes receberam a cédula com os nomes de artistas que já haviam pedido formalmente para ser retirados da disputa.
O contexto que levou até aí é denso. Tudo começou em 22 de abril, quando o júri de cinco membros anunciou que não consideraria para o Leão de Ouro nenhum artista representando um país cujo governo ou líder enfrentasse acusações no Tribunal Penal Internacional. Oito dias depois, o júri renunciou coletivamente. Solange Farkas, Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi — todas escolhidas pela curadora Koyo Kouoh, que morreu no verão passado meses após ser anunciada como diretora artística — publicaram nota breve via e-flux: “A partir de 30 de abril, renunciamos.”
Diante do vácuo, a organização da Bienal criou o Visitors’ Lions, votação aberta ao público durante toda a temporada, com resultado previsto para novembro. O grupo de artistas que protesta, que inclui Laurie Anderson, Alfredo Jaar, María Magdalena Campos-Pons e Walid Raad, enviou uma primeira carta em maio e não recebeu resposta oficial. Numa segunda carta, tornada pública, o grupo foi direto: “Não temos nenhuma objeção ao conceito de permitir que visitantes votem em prêmios. Mas criar o Visitors’ Lions neste momento é um desvio da atenção sobre a renúncia do júri, e contradiz diretamente o processo.”
A Bienal respondeu por e-mail ao New York Times dizendo que manteve os nomes na cédula para “garantir a todos os visitantes sua liberdade de expressão”, acrescentando que “qualquer voto recebido por artistas ou pavilhões que assinaram a recusa não será contabilizado.” Para os artistas, a explicação não basta — e não resolve o fato de que seus nomes continuam associados a um processo que eles rejeitaram publicamente.
A edição deste ano carrega ainda o peso simbólico da ausência de sua curadora original. Koyo Kouoh, primeira mulher africana convidada a dirigir a Bienal de Arte de Veneza, morreu em 2025 aos 58 anos, meses após ser anunciada para o cargo. A exposição “In Minor Keys” seguiu adiante com sua equipe, mas a crise política e agora jurídica sobrepõe-se à obra — e levanta uma questão que a Bienal ainda não respondeu: quem, afinal, está no comando desta edição?