Alguns artistas se relacionam com a matéria de maneira técnica, observando-a como um sistema independente do mundo. Outros, como Mayra Carvalho, trabalham a terra como quem se dirige a um parente antigo. Sua produção nasce desse conjunto de memórias, do contato com o território e da maneira como aprendeu a observar o dia, a noite e a passagem da luz – elementos que influenciam suas formas, suas escolhas e sua maneira de construir.
Nascida em 1997 na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro, Mayra tem raízes no povo Iny (Karajá), comunidade indígena que vive tradicionalmente às margens do rio Araguaia. Entre os Iny, as mulheres preservam uma das tradições cerâmicas mais importantes do país, as bonecas de barro Ritxoko, reconhecidas como Patrimônio Cultural do Brasil e fundamentais na transmissão de narrativas, ética e modos de viver às crianças.
A artista cresceu nesse cruzamento de mundos, acompanhando tanto esse repertório cerâmico transmitido pela avó quanto o cotidiano dos canteiros de obra da família paterna.
Entre barro, palha, ferro e fumaça, desenvolveu desde cedo uma familiaridade com materiais que hoje estruturam seu trabalho. Com o tempo, esse repertório se ampliou e passou a aparecer tanto nas esculturas de grande escala quanto nas obras bidimensionais, nos objetos em barro, nas tramas com sementes e nas experimentações sonoras.
Em corpos que se inclinam, dobram e se suspendem em muitas de suas obras, há a sensação de movimento mesmo na imobilidade completa, algo que a própria artista define como uma busca por esse ponto de tensão: “Eu tenho pensado muito sobre equilíbrio. Gosto dessa sensação de que a obra quase pode cair a qualquer momento. Isso também tem a ver com a relação que estabeleço com os elementos e com o peso que cada material carrega.”

Por muito tempo, seguir uma carreira artística não parecia uma possibilidade acessível. A universidade também não se apresentava como uma escolha óbvia.
O caminho se formou aos poucos, passando por figurino, modelagem, escola de samba, design de moda e arquitetura. Em todas essas áreas havia um modo de trabalhar que envolvia pensar o corpo em movimento, construir volumes e resolver questões materiais de forma intuitiva. A migração para o curso de artes na UFF apenas confirmou algo presente há muito tempo, mostrando que sua maneira de fazer nascia da experiência cotidiana e de uma relação direta com as coisas do mundo.
A partir daí, uma sequência vigorosa de residências orientou o desenvolvimento da artista, passando pelo Parque Lage (2021), El Recinto no México (2022), Bela Maré (2023), Casa Europa (2024), Cabomba na tríplice Amazônia (2025), Oficina Solar dos Abacaxis (2025) e outras experiências. Cada uma delas ajudou a moldar o alcance do seu trabalho, conectando México, Peru, Colômbia, Manaus e a própria Baixada Fluminense a partir de diferentes terras – muitas vezes recebidas como presente.
“Geralmente nas residências eu ganho terras de presente. As pessoas me dão um punhado, um pedaço. É uma relação de troca”
A mistura dessas terras, para ela, reúne histórias que se tocam e se transformam.

É impossível falar de Mayra sem falar da espiritualidade que orienta sua pesquisa. A artista descreve sua relação com os elementos – ventos, águas, fumaça, sementes – como parte de uma cosmopercepção herdada. Desde pequena, aprendeu com a avó a reconhecer um intervalo específico da madrugada, pouco antes do amanhecer, quando “os seres dançam no céu”, como ela conta. Essa escuta do tempo, marcada pelo horizonte da Baixada, pelas montanhas ao redor e pela passagem da luz, tornou-se um modo de perceber o mundo.
Em uma lembrança recente, voltando para casa por volta das quatro da manhã, ela reconheceu o horário apenas pelo canto de um pássaro. A experiência a fez pensar sobre a importância de preservar essa percepção em meio ao ritmo acelerado do cotidiano. Integrar essas sutilezas da noite e da luz no trabalho é uma forma de manter vivo esse aprendizado.
Nesses atravessamentos também aparece uma dimensão espiritual que a acompanha desde a infância, ligada à figura de Jagun e às encantarias associadas aos elementos e às materialidades que ela utiliza. Parte dessa relação se manifesta tanto no uso do ferro quanto no desejo recente de incorporar o barro branco em suas esculturas.
Suas esculturas, com nomes como Encruza dos Ventos (2024), Aruanã Assobio dos Ventos (2025), Murmúrio Ibó Corpo das Águas (2025) e Oré Bori: coreografia das águas e dos espíritos dos elementos (2024), operam como corpos de passagem, entidades que, como ela diz, “dançam”, mesmo quando paradas.

Se a dimensão espiritual sustenta a lógica da obra, a decisão técnica define seu corpo. Mayra projeta as estruturas metálicas, calcula pesos, dobra o ferro. O processo envolve decantar o barro por dias, peneirar repetidamente, testar texturas.
Ela desenvolve superfícies “aveludadas”, “crocantes”, “craqueladas”, sempre guiada pela sensação e não por uma nomenclatura pré-definida.
“Eu gosto das texturas, das sensações que cada barro cria.”
Toda montagem é planejada com cuidado, com módulos separados, embalagens próprias, uso de gomalaca quando necessário e uma atenção específica para que cada obra continue “respirando” mesmo durante o transporte, o armazenamento ou quando estão em exibição.

A série Seres Reflexos (2025) marca um momento em que o som ganha espaço na pesquisa de Mayra. O interesse por essa dimensão se fortaleceu durante a residência Cabomba, quando ela passou a trabalhar com sementes de seringueira, cujo movimento produz um som que lembra água. No Solar dos Abacaxis, crianças que visitavam seu ateliê balançavam as esculturas e deixavam esse som aparecer, algo que, para ela, indica o caminho dessa pesquisa. A experiência pessoal da retirada de um siso, que a fez pensar o corpo como cavidade e reverberação, também contribuiu para esse modo de compreender o som dentro da obra.
Já em peças como Terras, Bèrè (2025), Aruanã Assobio dos Ventos (2025) e Murmúrio Ibó (2025), há corpos monumentais que lembram brotos, montanhas, ventanias solidificadas.
Seu trabalho bidimensional acompanha esse movimento; Sonhar a Terra, Os Dias São Como as Noites (2024), A Luz do Dia Cede Lugar à Penumbra da Noite (2024) e outras investigações com barro, palha e grafismos.
Sobre os grafismos, ela conta: “Ele acompanha todos os meus trabalhos, às vezes de modo secreto.”

Mesmo jovem, Mayra já integrou mostras no Museu de Antioquia, em Medellín (2025), no Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro Cultural Correios, na Galeria A Gentil Carioca, na Galeria Nonada e na Bienal das Amazônias, além de participações no MAR, no MAM, no Parque Lage, no Solar dos Abacaxis, no Centro Hélio Oiticica, na Bela Maré e em diversos outros espaços independentes.
Obras suas integram os acervos do MAM Rio, do Museu Histórico Nacional e do Centro Cultural da Bienal das Amazônias, além de coleções particulares. Sonhar a Terra, uma de suas peças mais emblemáticas, foi requisitada para o edital SESC Pulsar e hoje pertence a uma coleção privada.
Crédito foto topo:
Mayra Carvalho na residência em 2025. (foto de Renato Mangolin)
