Artista aposta: Ana Sant’Anna

A pintora baiana que transforma caminhadas na praia e finais de tarde em paisagens que são, ao mesmo tempo, autorretratos

Ana Sant’Anna. Detalhe de Lume, 2024. Óleo sobre tela, 30 x 30 cm.

Ana Sant’Anna tem um horário fixo. Segunda a sábado, das nove às dezoito, ela está no ateliê. Um espaço coletivo chamado O Escritório, que fica num prédio comercial de Salvador dividido com outros dez artistas. Antes disso, Ana pintava num quarto do próprio apartamento, e ainda mantém ali uma estação de trabalho para quando não rola frequentar o ateliê com a regularidade que ela gosta. Mesmo porque, para ela, ficar alguns dias longe do próprio trabalho é um tanto perigoso.

Ana começou na arte pela fotografia. Em 2011, cursando museologia na faculdade, matriculou-se numa disciplina sobre o assunto, tendo ela um avô que foi fotógrafo amador e que a criou dentro desse universo. Dali em diante, construiu um arquivo que atravessou quase uma década, até 2019, fotografando arquitetura e natureza. As fotos iam desde o contraste de um prédio contra o céu até um detalhe perdido numa parede branca e os vestígios que deixamos sobre o mundo sem que o próprio corpo humano aparecesse na cena.

O ponto de virada aconteceu quando ela começou a se perguntar, com mais rigor, o que estava de fato buscando naquele volume enorme de imagens. Foi decantando, então, aos poucos uma resposta sobre a vontade por dizer muito com muito pouca coisa. Um tipo de investigação sobre si mesma que coincidiu, não por acaso, com um mestrado em comunicação e semiótica na PUC. Ana pesquisava a trajetória de um artista para a dissertação e, ao mesmo tempo, usava aquele instrumental teórico para entender a própria produção.

 

Ana Sant’Anna. Detalhe de O peso da leveza, 2025. Óleo sobre tela, 30 x 30 cm.

 

Em 2020 veio a primeira mostra institucional, ainda com o corpo fotográfico. Suas referências, hoje, passam por Mira Schendel, Fernanda Gomes e o fotógrafo Hiroshi Sugimoto, todos ligados a essa economia radical de meios que ela persegue desde o início. Mas também cita, com um entusiasmo que ela mesma descreve como encantamento, o pintor J. M. W. Turner e outros nomes ligados à paisagem como experiência atmosférica mais do que motivo. É uma lista que talvez explique a razão de seu processo ser tão pouco sobre observar o mundo e tão mais sobre atravessá-lo.

O fato é que o trabalho de Ana começa numa caminhada, de preferência os mesmos trajetos repetidos ao longo do tempo, para justamente perceber o que muda e o que fica. Morando em Salvador, os trajetos costumam levar à praia ou a um ponto de observação do pôr do sol. Dessas caminhadas ela traz duas coisas: um caderno onde escreve sensações e objetos recolhidos do chão.

De volta ao ateliê, ela produz estudos em papel com tinta a óleo, bastão e pastel oleoso, que cola nas paredes e com os quais convive por um tempo antes de partir para a tela. A pintura, ela insiste, não deve nascer de imagem fotográfica nenhuma, mas desse cruzamento entre um mundo interior e a experiência vivida lá fora – e precisa acontecer antes que a lembrança se dissolva, como se houvesse um prazo de validade para a memória de um encontro com a paisagem.

 

Ana Sant’Anna. Morada, 2025. Óleo sobre tela, 25 x 25 cm.

 

A tela passa por um processo que Ana considera essencial para criar a atmosfera que busca (a mesma que já tentava capturar nos estudos em papel). Ela usa pouca tinta, evita deixar a pincelada evidente e não tem lá muita busca por brilho. O resultado, daí, são superfícies foscas, fluidas, quase líquidas, o que ela atribui a uma ligação pessoal muito forte com a água. A paleta se repete como um vocabulário fixo, cheio de azuis, cinzas que às vezes parecem azuis, brancos e âmbares que ela reconhece nos finais de tarde da cidade na companhia de tons terrosos e um vinho que se revela no degradê do início da noite.

Por muito tempo, a artista trabalhou em pequenos formatos na esteira do interesse por aproximar o espectador da obra, criando certa intimidade quase incômoda de tão próxima. Agora, o desafio vem em telas um pouco maiores, que ela sente como uma necessidade da própria paisagem pedindo mais espaço para caber.

E, francamente, existe uma convicção, por trás de tudo isso, que soa mais espiritual do que estética. Para Ana, forças da natureza habitam o corpo humano assim como o corpo humano habita essas forças. Vento, água, terra, fogo, um éter qualquer. Parece que a artista sente, ao pintar, tudo isso às últimas consequências. E é também desse jeito que ela pensa a paisagem que pinta como um autorretrato possível, ainda que o trabalho, segundo ela mesma, só passe por ela à forma de um atravessamento temporário para algo que é muito maior e muito mais antigo do que qualquer biografia.

Sua formação acadêmica é em museologia, não em pintura, e talvez por isso ela costume dizer que não foi a faculdade nem uma tradição de ateliê que a formaram, mas a própria cidade. Salvador, assim como os trajetos repetidos até o mar e os finais de tarde que se repetem sem nunca repetir tanto assim, é que dão todo o chão para um olhar. E parece que perambular a cidade, de fato, acabe sendo uma atitude grande o bastante para formar uma artista.