
Faltam quatro dias para a abertura da 61ª Bienal de Veneza e Anish Kapoor entrou no debate com a franqueza que lhe é característica. Em entrevista ao Guardian publicada nesta semana, o artista britânico-indiano elogiou a renúncia do júri internacional como um gesto “corajoso” e foi além: disse esperar que o grupo também tivesse excluído os Estados Unidos da disputa pelos prêmios. “Eu esperaria que o júri pudesse ter também excluído os Estados Unidos por sua abominável política de ódio e seu belicismo incessante”, declarou.
A declaração de Kapoor chega num momento em que a Bienal já enfrenta contestação em múltiplas frentes. Em 22 de abril, o júri havia anunciado que não avaliaria para o Leão de Ouro os pavilhões de países cujos líderes respondem por crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional — excluindo efetivamente Rússia e Israel da disputa. Oito dias depois, os cinco membros renunciaram em bloco. A organização da Bienal, por sua vez, declarou não ter o direito de excluir nenhuma nação reconhecida pela Itália da participação no evento e que “rejeita qualquer forma de exclusão ou censura da cultura e da arte”.
A pressão sobre diversos pavilhões não vem apenas de fora da exposição. Dezenas de artistas participantes da mostra principal “In Minor Keys”, além de alguns assessores curatoriais envolvidos na montagem da exposição, assinaram uma carta aberta pedindo a exclusão dos três pavilhões. A participação russa é a primeira desde o início da invasão da Ucrânia, em 2022 — na edição de 2024, a Rússia havia cedido seu pavilhão à Bolívia. Israel, por sua vez, exibirá dentro do Arsenale em vez de seu pavilhão histórico nos Giardini, alegando necessidade de reformas. Na edição anterior, a artista Ruth Patir havia se recusado a abrir a exposição israelense enquanto não houvesse ceasefire em Gaza e libertação dos reféns — nenhuma das duas condições se concretizou, e o pavilhão permaneceu fechado durante toda a Bienal de 2024.
A escolha de Alma Allen para representar os Estados Unidos também gerou polêmica própria. O escultor autodidata do Arizona — primeiro artista não formalmente treinado a representar o país em Veneza — foi alvo de questionamentos sobre o mercado aquecido de suas obras, num momento em que críticos argumentam que a seleção deveria refletir um posicionamento político mais explícito diante da política externa americana. A organização da Bienal não se pronunciou sobre as declarações de Kapoor.