Afrofuturismo permeia a primeira individual de Zéh Palito em um museu brasileiro

No MAC Bahia, o curador Daniel Rangel fala da estreia individual de Zeh Palito em um museu e das referências nas obras do artistas, que vão do pai até a cultura norte-americana

Em cartaz até 22 de fevereiro no Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC), “Do pranto o oceano, e nadamos no amor” é a primeira mostra individual de Zéh Palito em um museu brasileiro. E uma exposição que manifesta a poética do artista que navega do grafite a referências a cultura do cowboy norte-americano, que carrega inspirações em nomes como Emanoel Araújo e Mestre Didi e na relação com o pai e o cultivo de banana.

“We Are Kings”, 2025, Zéh Palito. foto: Luana Daltro

Com curadoria de Daniel Rangel, a exibição apresenta um conjunto de 21 pinturas, uma escultura, seis instalações, um mural e uma escultura de um cacho de bananas rosa, obra muito cara ao artista. Todos os trabalhos foram desenvolvidos entre 2022 e 2025, alguns feitos exclusivamente para a mostra.

O ARTEQUEACONTECE esteve no MAC Bahia, em Salvador, e realizou uma entrevista exclusiva com Daniel Rangel para falar sobre Zéh Palito. “Para mim, hoje, Zéh é um dos principais artistas expoentes da juventude brasileira, em atuação no Brasil e no mundo. Ele tem uma trajetória que tem reconhecimento por onde passa“, afirmou o curador.

Ele ainda adiantou que as produções devem passar uma temporada no Instituto Brennand, no Recife, com data a confirmar.

Zéh Palito nasceu em Limeira, em 1986, e aos 15 anos encontrou no grafite uma forma de expressão artística. Hoje, ele tem reconhecimento internacional e só agora realiza uma individual em solo brasileiro.

O afrofuturismo pintado em tons de rosa e pasteis, o traço pessoal, pessoas negras em cenários fanásticos e em posição de poder, assim como ícones de consumo como tênis e carros permeiam a produção de Zéh Palito. Em suas obras, o diálogo direto não é só entre ancestralidade e desejo, mas tmabém de uma poética que vai da pintura de rua para os cavaletes.

Rangel dimensionou a importância dessa estreia e falou como o racismo sofrido por Vini Jr. em jogos de futebol na Espanha se ganham novos contornos em suas obras. A conversa completa, você confere a seguir.

“Uncomfortable Conversations with a Black Man”, 2025, Zéh Palito. foto: Luana Daltro

AQA: Essa é a primeira exposição individual do Zéh Palito em um museu brasileiro. Como a gente pode dimensionar esse fato e, ainda mais, que esteja ocorrendo justamente aqui nesse espaço, nesse museu em Salvador?

Daniel Rangel: Para mim, hoje, Zéh é um dos principais artistas expoentes da juventude brasileira, em atuação no Brasil e no mundo. Ele tem uma trajetória que tem reconhecimento por onde passa. Ele morou na África, tem uma relação forte com os Estados Unidos, agora está chegando forte na Europa. É de uma geração de artistas contemporâneos mesmo, que já nasceu na contemporaneidade, na linguagem da arte urbana, que tem tudo a ver com o MAC, que desde a sua abertura trouxe o grafite como linguagem para dentro do museu.

Então, a gente tem um artista desse porte, uma espécie de um artista de um patamar de um Gêmeos, por exemplo, e que está iniciando sua primeira exposição. Um museu de arte contemporânea precisa ser ponta de lança. E o MAC Bahia vem fazendo algumas exposições que são primeiras exposições de alguns artistas baianos.

Ele escolheu tanto o MAC quanto a mim para fazer essa primeira exposição para também se reconhecer como um artista afrodiaspórico, conectado com o trabalho que o MAC vem fazendo nesse sentido, que tem a ver com a identidade da Bahia.

AQA: Falando da linguagem de Zéh, a dimensão das obras é também uma certa continuação dos grafites?

Daniel Rangel: A gente trabalhou junto quase um ano, um ano e pouco. As pinturas, as três maiores que a gente vê aqui, foram pintadas não só fazendo essa relação com o grafite, mas com o espaço mesmo.

Então a gente definiu as paredes e ele, as medidas do quadro a partir da parede. Assim como o núcleo de outro andar, que são todas referentes à Bahia. 

Em outra sala tem Emmanuel Araújo, tem o samba, tem a praia, o Rio de Janeiro, e Limeira, a cidade dele. Do lado de cá, ele trouxe essa questão do cowboy e a questão dessa influência da cultura norte-americana.

E a última salinha, que a gente chamou de “Sala da Intimidade”, conta com quadros que ele fez com a mãe dele, que são quadros de tecido. Outros trabalhos representam amigos dele e cujas obras também são de colecionadores particulares, mas todas de colecionadores próximos. 

Ele nunca tinha exposto esses tecidos, nenhum, nem nada disso como obra. A partir daí tivemos uma conversa sobre ele nunca ter feito uma exposição em um museu.

AQA: E as referências dele?

Daniel Rangel: Na série da Bahia tem uma reverência aos mestres. Emanuel Araújo, Rubem Valentim, Didi, e José Adário dos Santos.

Zéh é um cara que faz uma trajetória interessante, ao revés, de fora para dentro, mas com um elemento cultural super de dentro. Ele sai do grafite pintando o mundo. Ele ganha uma super projeção através do grafite, pintando painéis ao redor do mundo e alcança uma visibilidade, sobretudo nos Estados Unidos.

Ele e eu adoramos poesia. A gente vem falando de poemas que inspiram a gente às vezes. Não são textos críticos, às vezes um poema, uma citação, coisas assim.

O próprio Emanuel mesmo, tem um livro de poemas que a gente leu bastante para poder falar dessa exposição. Também ele vem lendo Frantz Fanon. Então, uma consciência realmente sobre o seu lugar de fala e sobre a representação, a representatividade dele como um jovem negro no interior de São Paulo.

Ele tem a consciência disso, de ser filho de um lavrador, de uma pessoa mais humilde que acaba conquistando muito através da arte.

Ele não é, enfim, uma pessoa que fala muito, mas, quando fala sobre o trabalho, tem total consciência da importância da colocação desses corpos pretos em local de destaque, em local de empoderamento, de um afrofuturismo bem forte, bem expressivo, de dizer que é isso mesmo e tomem.

AQA: E como podemos entender a presença das frutas? A gente vê que tem a ver com desejo, mas queria que você trouxesse um pouco mais, inclusive essa instalação grande de banana, bem pop.

Daniel Rangel: As frutas, e ele me falou, têm a ver com a realidade dele de Limeira, do pai trabalhar no campo, plantando, colhendo frutas. É uma relação bem de proximidade com esse universo.

Zéh sempre entendeu uma tropicalidade, digamos assim. Perguntei especificamente sobre essa questão da banana, e ele me citou o caso de Vinícius Júnior, que foi atacado com bananas num estádio de futebol. E Zéh ficou muito perturbado com aquilo, que para ele a banana era uma coisa de orgulho. Ele queria justamente reverter esse símbolo de agressão, colocar em destaque, ia pintar rosa para chamar a atenção realmente. 

Ele falou sobre o pai plantar um monte de banana, de querer que a banana fosse uma coisa de poder. O cara realmente traz o pai, a mãe, as questões do país, da cidade, do Estado.