
Há espaços que nascem para exibir arte e espaços que a arte simplesmente ocupa até virarem uma coisa só. O Cedroo pertence à segunda categoria. Um apartamento-ateliê num edifício dos anos 1940 no centro histórico de São Paulo, onde Jean Smekatz vive e trabalha, e que agora também abriga exposições. A escolha de não separar o lugar onde a obra é pensada do lugar onde ela é mostrada é, antes de tudo, uma declaração de escala e de intenção. Afinal, o Cedroo se define como um ambiente de encontro entre artistas, trabalhos e público, e não só como uma vitrine ou coisa do tipo.
A mostra inaugural, batizada “Seis do Seis”, abriu no dia 6 de junho e fica em cartaz até 1º de agosto. Reunindo obras de Jean Smekatz e Michel Scherer, dois artistas ligados por uma amizade de longa data e por uma convivência intensa de ateliê, a exposição conta com curadoria da artista Débora Bolzsoni. E Débora aposta na ideia de colocar lado a lado duas produções bastante distintas para deixar que a diferença entre elas afirme a identidade de cada uma.

A pesquisa de Smekatz se organiza em torno do atrito entre o espaço vazio e o preenchido. Parece, de algum modo, que suas formas produzem espaços mais ou menos cheios, como se o lado oposto das cartas pudesse vez em quando virar a sua face. Acontece que as obras de Jean enfrentam a própria identidade da pintura ao experimentarem os restos de uma experiência sensível do plano. A série “Do corpo a cor” (2025) dá o tom da mostra, complementada por monotipias recentes da série “Paisagens internas” (2026), feitas com óleo de turmalina negra sobre papel, e por telas de pequeno formato que expandem essa investigação sobre cor, corpo e presença.

Scherer caminha por um outro terreno, e curiosamente os seus trabalhos instalativos e escultóricos, pouco exibidos, são o ponto alto da exposição. A escultura “Pássaro e ovo 1” (2026), feita em concreto, aço e casca de ovo de galinha, e a série “Cavalos” (2026), pintada com têmpera vinílica de óxidos de ferro e terra sobre tela, desenvolvem uma relação estranha com os materiais. Isso porque permitem um buraco, uma casca de ovo e um vergalhão torneado que deem conta de encarar o mundo como impossibilidade. Parece, no fim, que os trabalhos mentem sobre as propriedades dos materiais e, com isso, também enganam os nossos olhos frente à forma como nos relacionamos com o espaço.
Talvez o que aproxime essa diferença toda entre os dois artistas não seja mais do que a crença em tornar o possível e o impossível reversíveis. E também por isso é que os dois trabalhos parecem os polos opostos, e complementares, um do outro.