
O Museu da Abolição, no bairro da Madalena, no Recife, voltou a receber exposições. Na segunda-feira, 15 de junho, a instituição reabriu integralmente ao público com duas mostras — “Que herança você vai poder?” e “Restituir o Possível” —, encerrando um período em que funcionava apenas com iniciativas e atividades culturais, sem exposições nas paredes. A reforma estrutural do prédio havia terminado em 2022, mas só agora o museu retoma sua vocação primeira: a de expor.
Vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), o Museu da Abolição tem como missão preservar e difundir a memória e os valores históricos, artísticos e culturais dos afrodescendentes, contribuindo para o fortalecimento da identidade e da cidadania do povo brasileiro. No caso das duas mostras que inauguram a nova fase, esse trabalho passa menos pela celebração de uma data e mais pelo incômodo das perguntas que ela deixou em aberto.
No térreo, “Restituir o Possível” parte de uma questão que hoje atravessa museus no mundo inteiro: o que fazer com os objetos deslocados de seus territórios de origem pelo colonialismo? Com curadoria de Isabelle de Oliveira Ferreira e Wellington Ricardo da Silva, do coletivo Mandume Cultural, a exposição apresenta um recorte do Acervo de Cultura Material Africana do museu — esculturas, máscaras e regalias de doze países africanos e mais de vinte etnias.

A resposta que os curadores propõem não é a da devolução física. A restituição, aqui, é entendida como gesto simbólico e sensível: deixar que as peças falem por si. Cada objeto é tratado como testemunho de cosmologias e trajetórias que o olhar colonial tentou reduzir a categorias fixas — e que, ainda assim, insistem em permanecer vivas.
No primeiro piso do Sobrado da Madalena, “Que herança você vai poder?” formula sua pergunta a partir de uma data. O que restou, de fato, depois de 1888? A Lei Áurea foi simbólica, mas o Estado brasileiro falhou ao não oferecer reparação, terra, educação ou trabalho aos mais de 700 mil libertos. É dessa herança precária que parte a mostra, que toma a arte como campo de enfrentamento.
Com curadoria de Alex de Jesus, a exposição reúne 29 artistas e 31 obras e se organiza em três tempos — passado, presente e futuro. O fracasso da abolição como projeto de cidadania é o fio que costura as salas, até a provocação que dá título ao conjunto: se a liberdade foi concedida, mas os direitos foram negados, o que se faz com o que sobrou?
Ambas as mostras têm entrada gratuita. O Museu da Abolição funciona de segunda a sexta, das 9h às 17h, e aos sábados, das 13h às 17h, na Rua Benfica, 1150, na Madalena, Recife.