Vez em quando, volto à pergunta de como uma pintura é capaz de narrar sem virar um “trabalho narrativo”. Nunca gostei de trabalhos que simplesmente relatassem fatos ou dados biográficos e, por isso, entender o limite de onde isso começa parece importante. Obras sem um significado preciso, capazes de me revelar sensivelmente coisas diferentes a cada vez que vejo – sobretudo falando de pintura –, foram sempre as que mais me comoveram. Algo assim, de saída, poderia parecer uma ressalva boba sobre a figuração ou mesmo algum tipo de neurose “formalista” (que hoje já é difícil entender exatamente o que significa). Mas, como entendo que boa parte da melhor pintura contemporânea brasileira seja figurativa, também penso que os artistas devam sempre questionar sobre os atuais dilemas da pintura e da figuração.
Em sua nova individual na Galeria Claraboia, Juliana Lapa reitera que é uma pintora figurativa. Só que, apesar dos trabalhos serem ancorados em cenas, contos e histórias, nada parece realmente dar conta de um enredo. Somos induzidos a identificar uma alegoria, mas as histórias acabam sempre irresolvidas ou contadas pela metade. Mulheres dançam, acendem fogueiras, correm com bichos e engolem paisagens como capítulos de um livro ainda a ser escrito. E, na medida em que cada cor ocupa uma camada de tinta, a artista desenha na retirada – ao modo de um presente que se forma sob o passado...