
No Itaú Cultural, as entradas já entregam o que vem pela frente. Antes mesmo de chegar às esculturas de Mestre Didi, já dá para ver pela escolha dos materiais, pela composição do espaço, e pela textura do que está nas paredes, que não se trata de uma exposição qualquer. Isso porque cada detalhe carrega a ancestralidade que define a obra do sacerdote-artista baiano, desde a nervura da folha de dendezeiro, o búzio, o couro até o ângulo de uma escultura suspensa no ar.
“Mestre Didi: invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira”, em cartaz no Itaú Cultural até 5 de julho, é uma celebração, mas do tipo que não abre mão da densidade. Com curadoria de Ayrson Heráclito e Rodrigo Moura, a mostra percorre toda a trajetória de Déoscóredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi (1917-2013), articulando esculturas, cetros, fotografias, mobiles, acessórios e uma instalação sonora numa harmonia que parece, ela mesma, uma espécie de ritual.
No centro estão as esculturas de Didi, feitas com nervuras de folhas de dendezeiro, couro e búzios. Os materiais não são ornamentais: cada fibra carrega significado dentro da cosmologia dos orixás, e Didi os manipulava com a mesma autoridade de quem era, ao mesmo tempo, artista e assogbá, sumo sacerdote do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador. Começou a produzir objetos rituais ainda adolescente, e ao longo das décadas foi expandindo sua linguagem: os cetros cresceram em escala, saíram do uso cerimonial e chegaram aos espaços públicos urbanos, contrapondo-se à marginalização das histórias afro-brasileiras e subvertendo as narrativas imperialistas dos monumentos convencionais.

A exposição não isola Didi, pelo contrário, tece sua obra numa rede mais ampla de relações, influências e afetos. Estão lá os artistas formados em seus ensinamentos, reunidos sob a noção de odara, conceito estético nagô segundo o qual não há distinção entre arte e sagrado, nem hierarquia entre objeto artístico e objeto utilitário. A Sociedade Cultural e Religiosa Ilê Axipá, fundada por Didi em Salvador em 1980, gerou criadores como Goya Lopes, Nádia Taquary e Ayrson Heráclito, um dos próprios curadores da mostra. Rubem Valentim também está presente, inserido no núcleo dedicado aos modernismos afro-brasileiros, que recupera trajetórias paralelas à de Didi e desafia a ideia de que a abstração é uma invenção exclusiva do modernismo europeu.
A dimensão política da trajetória de Didi aparece com igual força. Filho da ialorixá Mãe Senhora, bisneta de uma das fundadoras do primeiro terreiro de candomblé no Brasil, ele atuou em múltiplas frentes numa época em que o candomblé era alvo de criminalização e discriminação racista. Fez parte dos Obás de Xangô, grupo que reunia personalidades com inserção social e cultural responsáveis por defender e difundir o candomblé na Bahia, daí sua proximidade com Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi. Participou ativamente da fundação da Conferência Mundial da Tradição e Cultura dos Orixás, ao lado de intelectuais do Haiti, da Nigéria e de Cuba, e esteve entre os articuladores da Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil, a SECNEB, que mobilizou nomes como Abdias Nascimento e Lélia Gonzalez.
Um dos momentos mais potentes da mostra é o conjunto de fotografias de Arlete Soares, que passou décadas documentando o candomblé com a influência de Pierre Verger e uma sensibilidade inteiramente própria. As imagens conectam Salvador ao Benin – festas de Oxóssi, cerimônias de egungun, voduns fotografados durante um intercâmbio cultural Benin-Bahia em 1986 – e tornam visível o que a exposição afirma o tempo todo: que essa história atravessa o Atlântico, e que a Bahia e a África Ocidental seguem unidas por fios que a diáspora não rompeu.

A instalação sonora completa uma experiência que é simultaneamente visual, sensorial e espiritual, e, talvez, não valha tentar separar essas camadas. “Mestre Didi: invenção e ancestralidade” é uma exposição para celebrar a cor, origem e a força de um movimento que vai da Bahia ao Benin, e que está, finalmente, no centro da narrativa da arte brasileira onde sempre deveria ter estado.
Serviço:
Mestre Didi: invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira
Itaú Cultural
Até 5 de julho de 2026
Terça a sábado | 11h às 20h
Domingos e feriados | 11h às 19h
Pisos 1, -1 e -2
Entrada gratuita