A Art Basel anunciou nesta semana que o artista americano Trevor Paglen vai cocurar a próxima edição da Zero 10, a plataforma da feira dedicada à arte moldada pela cultura digital. A curadoria será compartilhada com o estrategista de arte digital Eli Scheinman, e a edição marca a estreia do programa em solo suíço — depois de passagens anteriores em Miami Beach e em Hong Kong.
A escolha do nome carrega peso curatorial. Trevor Paglen, nascido em 1974 em Camp Springs, Maryland, é uma das figuras mais influentes do cruzamento entre arte, tecnologia e crítica institucional das últimas duas décadas. Doutor em Geografia pela Universidade da Califórnia em Berkeley, sua prática transita entre fotografia, escultura, jornalismo investigativo e arte computacional, com investigações que tornaram visíveis infraestruturas habitualmente invisíveis — bases militares secretas, cabos submarinos de telecomunicações, satélites espiões, conjuntos de dados usados para treinar sistemas de inteligência artificial. Seus trabalhos integram coleções de instituições como o Metropolitan Museum, o MoMA, a Tate Modern e o San Francisco Museum of Modern Art. Que ele assuma a curadoria de uma plataforma dedicada à arte que pensa a cultura digital é menos um movimento de aproximação do que uma confirmação institucional de um campo no qual o artista já era referência crítica.
A Zero 10 ocupará o Event Hall em Messeplatz entre os dias 17 e 21 de junho de 2026 — na maior edição já realizada da iniciativa. Vinte expositores foram confirmados, reunindo galerias e organizações que vão desde nomes consolidados do circuito comercial até instituições especializadas em arte e tecnologia. Entre os participantes estão Hauser & Wirth, Marian Goodman Gallery, Esther Schipper, Sprüth Magers e HEK (Haus der Elektronischen Künste), o centro suíço dedicado à arte eletrônica. Os artistas em exibição incluem Hito Steyerl, Andreas Gursky, Vera Molnár, Rafael Lozano-Hemmer e Ryoji Ikeda — um recorte que articula gerações distintas e abordagens divergentes da relação entre arte e meio digital.
O tema desta edição, The Condition, organiza a programação em torno da pergunta sobre o que significa viver uma existência moldada por inteligência artificial, imagens digitais e sistemas computacionais. Entre os destaques anunciados estão instalações de grande escala dedicadas à ecologia, à vigilância, à inteligência artificial, aos sistemas de blockchain e à crise climática. Um programa público de conversas, organizado em paralelo às exposições, vai abordar trabalho, autoria e cultura algorítmica na arte contemporânea — três eixos que atravessam o debate atual sobre como a produção artística se reposiciona diante da automação e da consolidação dos sistemas de IA generativa no circuito comercial.
A entrada da Zero 10 em Basel marca um momento curioso para a Art Basel. A feira-mãe, que segue sendo o evento mais importante do calendário comercial da arte contemporânea global, divide agora seu espaço em Messeplatz com uma plataforma que opera em outra lógica de circulação — menos centrada no objeto único e mais no debate sobre as estruturas, materiais e tecnologias que sustentam a produção visual contemporânea. Ter Paglen na curadoria reforça que essa não é uma operação meramente decorativa.
