O Brasil chega à Frieze New York 2026, que abre nesta quarta-feira (13) no The Shed, em Hudson Yards, com oito galerias — a maior presença já reunida numa edição americana do evento.
Como já é hábito entre as galerias brasileiras nas feiras internacionais, a estratégia de ancorar o contemporâneo em obras históricas, reunindo os dois na mesma parede, atravessa boa parte dos estandes. Mas em casos como os da Central, que leva um solo de Bruno Cançado, bem como da Fortes D’Aloia & Gabriel e da Vermelho, que contam com estandes coletivos de artistas representados pela galeria, segue firme o protagonismo de obras somente do mercado primário.
A Nara Roesler (D12) apresenta dois Metaesquemas de Hélio Oiticica de 1958 — guache sobre cartão, neoconcretismo em estado nascente — ao lado da série Metaesquemas Canoeiros que Jonathas de Andrade produziu em 2026 em citação direta ao artista carioca. De Andrade, alagoano, trabalha a partir de velas de jangada coletadas em Maceió, serigrafadas com rostos de pescadores; ao fundo, esculturas em madeira de cajacatinga, espécie quase extinta da Mata Atlântica, que Marcelo Silveira lavra em Pernambuco. Uma tela de Tomie Ohtake de 1977 fecha o arco temporal.
A Mitre (C04) faz sua estreia no andar principal depois de um ano na seção Focus, e chega com Bodies-Territory: Essays of Tomorrow, curadoria que coloca Amadeo Luciano Lorenzato (1900–1995), pintor mineiro de paisagens que ficou à margem dos circuitos durante quase toda a vida, ao lado de doze vozes contemporâneas nascidas entre 1979 e 1997. Entre elas: Aline Motta, cuja série (Other) Foundations integra a Bienal de Veneza deste ano; davi de jesus do nascimento, barranqueiro do São Francisco nascido em Pirapora em 1997; Manauara Clandestina, de Manaus; e Jaider Esbell (1979–2021), artista indígena Makuxi de Roraima. A Mitre descreve o conjunto como “uma cartografia viva de um Brasil plural onde passado e futuro se reinventam no presente.”
A Fortes D’Aloia & Gabriel (B14) organiza o espaço em torno da paisagem como percepção. Luiz Zerbini dialoga com Frank Walter (1926–2009), o artista de Antígua cuja obra polímata foi redescoberta recentemente no The Drawing Center e na Bourse de Commerce — suas miniaturas a óleo sobre caixa de Polaroid são das peças mais desconcertantes do andar. Lucia Laguna, Valeska Soares, Erika Verzutti, Wanda Pimentel (cinco nanquins de 1966, recém-incluída em Vital Signs no MoMA) e Tadáskía — com um pastel vindo direto de sua individual no MoMA em 2024 — completam o estande.
A Vermelho (D-10) traz Eustáquio Neves, fotógrafo de Diamantina convidado por Koyo Kouoh para a Bienal de Veneza 2026, ao lado de Rosângela Rennó com a nova série Mutatis Mutandis — fotografias de imagens de santos com folha de ouro aplicada sobre fissuras — e de Carmela Gross com Fontes Luminosas, vídeo produzido para o sistema de videotexto em 1983, exibido na 17ª Bienal de São Paulo e hoje na coleção do MoMA.
A Almeida & Dale ocupa o estande D08 em parceria com a americana François Ghebaly, colocando Lorenzato e Maxwell Alexandre ao lado de nomes como Emily Kam Kngwarray e Joeun Kim Aatchim. Em paralelo, arma uma segunda frente na Independent New York (Pier 36, estande 303), com Miguel Rio Branco em diálogo com a escultora Chakaia Booker, ao lado da David Nolan Gallery.
A Central (F05, Focus), leva o solo Fraction de Bruno Cançado — esculturas em adobe, cimento e madeira de reúso que mimetizam a lógica do pau-a-pique e jogam com uma relação à beira do tombo ou desequilíbrio.
A Mendes Wood DM (B07), por sua vez, leva vinte artistas numa montagem que costura modernismo internacional, contemporâneo brasileiro e nomes da arte construtiva japonesa: Sonia Gomes, Lygia Pape, Rosana Paulino, Antonio Obá, Precious Okoyomon, Paulo Nimer Pjota, Solange Pessoa e Lorenzato do lado brasileiro — este último aparecendo aqui pela terceira vez no mapa da delegação, depois de Mitre e Almeida & Dale — ao lado do japonês Kishio Suga (um dos fundadores do movimento Mono-ha), Hiroshi Sugito, o francês Pol Taburet e o tcheco Vojtěch Kovařík, entre outros.
O mapa dos estandes revela uma sobreposição significativa: Jaider Esbell aparece na Mitre e na Almeida & Dale; Vivian Caccuri, n’A Gentil Carioca e na Almeida & Dale; Lorenzato na Mendes Wood DM, Mitre e na Almeida & Dale.
A Frieze cai numa semana de Nova York sem folga — Sotheby’s e Christie’s nos leilões da terça, TEFAF no Armory de 15 a 19, NADA e Independent em paralelo. E o Brasil, por sua vez, chega com Oiticica e Lorenzato e chega até um chão de Denilson Baniwa.
