Artistas da Bienal de Veneza renunciam os votos em nova premiação

  A crise da 61ª Bienal de Veneza ganhou mais um capítulo. Dois dias após a abertura ao público, mais de 70 artistas participantes da edição publicaram uma declaração coletiva…

 

A crise da 61ª Bienal de Veneza ganhou mais um capítulo. Dois dias após a abertura ao público, mais de 70 artistas participantes da edição publicaram uma declaração coletiva na plataforma e-flux anunciando que não desejam ser considerados para os prêmios da mostra — os chamados Visitor Lions, sistema de votação popular criado pela Fundação Bienal após a renúncia em bloco do júri internacional no final de abril.

A declaração, assinada por artistas da exposição principal “In Minor Keys” e por representantes de 22 pavilhões nacionais, afirma o seguinte: “Retiramo-nos da consideração para os prêmios Visitor Lion em solidariedade com a renúncia do júri selecionado por Koyo Kouoh.” Entre os signatários estão Walid Raad, Laurie Anderson, Alice Maher, Alfredo Jaar e Pio Abad, da exposição central, e nomes de pavilhões como a francesa Yto Barrada, a irlandesa Isabel Nolan, a lituana Egle Budvytyte e o holandês Dries Verhoeven. O fotógrafo indiano Sohrab Hura, cujo filme “The Coast” está em exibição no Arsenale, resumiu a posição com uma frase que dispensa elaboração: “O júri agiu como qualquer pessoa com consciência moral teria feito. Prefiro apoiá-lo do que torcer por algum prêmio.”

A sequência de eventos que levou a esse ponto é conhecida: o júri, presidido pela brasileira Solange Oliveira Farkas e composto exclusivamente por mulheres, havia declarado em 22 de abril que não avaliaria para os Leões de Ouro e de Prata pavilhões de países cujos líderes respondem por crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional — referência direta aos mandados de prisão de Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu. Oito dias depois, renunciou em bloco. A Fundação Bienal respondeu criando os Visitor Lions: ao longo dos seis meses da mostra, visitantes que tiverem passado pelas duas sedes poderão votar em seus favoritos, com resultado anunciado no encerramento, em novembro.

A solução foi recebida com ceticismo por boa parte do campo artístico. Para os signatários da declaração, aceitar concorrer ao novo prêmio equivale a legitimar um mecanismo criado para contornar o impasse político sem resolvê-lo. A Bienal, por sua vez, informou que “toma nota” da declaração — o que, na prática, significa que os artistas que eventualmente vencerem a votação popular simplesmente não receberão o prêmio.

O artista Belu-Simion Fainaru, escultor romeno-israelense que representa Israel nesta edição, disse ao The Art Newspaper que “como artista, me oponho a boicotes culturais, pois acredito na importância do diálogo e do intercâmbio, especialmente em tempos difíceis”. A Rússia, cujo pavilhão permaneceu aberto apenas durante os três dias de prévia para imprensa por conta das sanções europeias, já havia levado a União Europeia a retirar seu financiamento do evento. O presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, mantém a posição que expôs em conferência na semana anterior: uma Bienal que seleciona países por passaporte “deixa de ser o lugar onde o mundo se encontra”. A frase continua sendo repetida. O mundo, do lado de fora, continua discordando.

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