A mãe mais famosa da história da arte não tem nome. Aparece sentada de perfil, vestida de preto, num quadro que James McNeill Whistler pintou em 1871 e chamou, com a secura de quem prefere falar de composição, de “Arranjo em Cinzento e Preto nº 1”. O mundo logo rebatizou a obra de “A Mãe de Whistler” — e o apelido grudou com a força daquilo que as pessoas precisam que uma imagem signifique. A figura ali não é sentimental. É monumental na sua quietude, quase austera. Whistler dizia que o quadro era sobre luz e forma. Talvez. Mas também é sobre o peso de uma presença que não precisa fazer nada para ocupar o espaço inteiro.
Antes de Whistler, a maternidade tinha endereço fixo na arte: o colo da Virgem. Das madonne de Rafael às Pietàs de Michelangelo, o corpo materno era superfície de projeção teológica — suporte para a dor, para a graça, para o sacrifício alheio. A Pietà mais famosa, esculpida por Michelangelo entre 1498 e 1499 e instalada na Basílica de São Pedro, no Vaticano, mostra Maria segurando o corpo de Cristo morto com uma calma que incomodou os contemporâneos: ela parece jovem demais para ser mãe de um homem adulto. Michelangelo respondeu que a pureza preserva. É uma resposta bonita. É também uma resposta que diz tudo sobre o que a arte, por séculos, quis fazer com a figura da mãe: preservá-la fora do tempo, fora do corpo, fora da ambiguidade.
A fotografia quebrou esse acordo. Em 1936, Dorothea Lange fotografou Florence Owens Thompson num campo de colheita na Califórnia — mãe de sete filhos, migrante, 32 anos. O rosto encostado na mão, o olhar para o lado, as crianças aconchegadas ao corpo de costas para a câmera. “Mãe Migrante” tornou-se uma das imagens mais reproduzidas do século XX e símbolo da Grande Depressão americana. Thompson nunca recebeu nada pela fotografia. Disse, anos depois, que Lange havia prometido não publicar as imagens. A maternidade capturada ali era real, precária, sem moldura dourada — e a história da imagem é também a história de quem tem o poder de enquadrar o sofrimento de quem.
Louise Bourgeois chegou ao tema pelo avesso, como fazia com tudo. “Maman”, a aranha de bronze de nove metros que a artista criou em 1999, carrega sob o abdômen um saco de mármore com ovos de aço. É simultaneamente protetora e aterrorizante, delicada e monstruosa. Bourgeois disse que a aranha era uma homenagem à mãe — tecelã, paciente, construtora de teias. Mas a escala da obra faz o visitante sentir o que nenhum cartão de felicitações enuncia: que o amor materno, quando imenso, também esmaga. Que a proteção e o sufocamento às vezes têm a mesma forma. Instalada em museus de Londres a Bilbao, “Maman” é talvez a obra mais honesta já feita sobre o tema — justamente porque recusa a honestidade confortável.
A maternidade sempre foi um dos temas mais fotografados, pintados e esculpidos da história da arte — e, por isso mesmo, um dos mais difíceis de trabalhar sem cair no lugar-comum. O dia das mães é um convite ao sentimentalismo fácil. A arte, quando funciona, é o convite oposto: olhar para o mesmo tema sem a proteção do clichê, e descobrir que o que está ali é mais complexo, mais físico e mais verdadeiro do que qualquer flores daria conta de dizer.

