Novo LACMA abre após 25 anos de projeto em Los Angeles

Depois de 25 anos de planejamento, uma conta final de 724 milhões de dólares e uma sequência de polêmicas que acompanhou cada versão do projeto, o Los Angeles County Museum…

Depois de 25 anos de planejamento, uma conta final de 724 milhões de dólares e uma sequência de polêmicas que acompanhou cada versão do projeto, o Los Angeles County Museum of Art abriu ao público as David Geffen Galleries, o novo edifício principal do maior museu enciclopédico do oeste dos Estados Unidos. O projeto é do arquiteto suíço Peter Zumthor, em colaboração estrutural com o escritório SOM, e entrega uma das construções mais tecnicamente ousadas concluídas num museu nos últimos anos.

O dado mais imediato é físico: o edifício tem 274 metros de extensão, flutua 9 metros acima do solo e atravessa a Wilshire Boulevard sem tocar o asfalto. A estrutura é uma laje contínua de concreto sem juntas, sustentada por sete pavilhões de vidro no nível da rua e apoiada sobre 40 isoladores sísmicos que permitem ao edifício se deslocar até um metro e meio em qualquer direção durante um terremoto sem comprometer a integridade estrutural. O concreto é ao mesmo tempo estrutura e acabamento — em alguns salões, pigmentos azul, vermelho e preto foram incorporados à massa, atenuando a frieza industrial do material sem dissimular sua natureza.

No nível expositivo, um único pavimento contínuo abriga os 26 salões do museu, todos com dimensões e layouts distintos mas sem paredes falsas ou divisórias temporárias — o espaço é fixo, e é a curadoria que se adapta a ele. A fachada de vidro panorâmica enquadra Los Angeles como pano de fundo permanente da experiência, enquanto cortinas de aço inoxidável comissionadas à designer têxtil Reiko Sudō filtram a luz californiana sobre as obras.

A decisão curatorial que o edifício torna possível é tão relevante quanto a arquitetura. Sem espaços destinados a departamentos específicos, o LACMA rompeu com a hierarquia tradicional que reserva corredores longos e nobres à escultura greco-romana e relega a arte das Américas, da África e da Oceania a alas periféricas. Aqui, obras de 15 departamentos curatoriais circulam pelo mesmo nível — arte medieval europeia ao lado de têxteis islâmicos, escultura contemporânea confrontando cerâmica pré-colombiana. Uma galeria dedicada à cultura do automóvel reúne um Studebaker Avanti de 1963, pinturas de Carlos Almaraz e fotografias de Ed Ruscha sobre estacionamentos vazios de Los Angeles. A prancha de surf de Duke Kahanamoku, de cerca de 1917, tem o mesmo estatuto expositivo que os Rodins instalados na área externa. O resultado é um museu que trata a história da arte como campo aberto — não como sequência linear com começo europeu e periferia global.

 

 

A experiência interna oscila entre dois estados que raramente coexistem num mesmo museu. A fachada contínua de vidro inunda os corredores periféricos com a luz intensa do sul da Califórnia, atenuada pelos vidros tingidos e pelas cortinas de Reiko Sudō. Mas os salões internos mergulham o visitante numa sombra densa e controlada, quase subterrânea, que contrasta de forma abrupta com a luminosidade exterior. Em poucos passos, atravessa-se do fulgor para o crepúsculo — uma alternância que Zumthor parece ter calibrado menos como efeito dramático e mais como condição para que obras de naturezas distintas coexistam sem se anularem. Os suportes expositivos — plinths, vitrines e mesas de madeira e aço — introduzem uma escala humana que ameniza a monumentalidade do concreto sem dissimulá-la.

Do lado de fora, o museu estendeu seu programa para o espaço público com uma generosidade que poucas instituições americanas praticam com essa consistência. Os Rodins do acervo foram realocados numa área gramada entre as escadarias externas. A fonte de Alexander Calder de 1964, “Three Quintains (Hello Girls)”, foi restaurada e reocupa seu lugar com uma presença que o abandono havia apagado. Do outro lado da Wilshire, o “Split-Rocker” de Jeff Koons — inteiramente recoberto por plantas nativas da Califórnia — garante floração permanente ao longo do ano, candidatando-se a tornar-se tão icônico quanto o “Urban Light” de Chris Burden, instalado a poucos metros. O conjunto transforma o entorno imediato do museu num percurso escultórico acessível sem ingresso, reforçando a aposta do LACMA em se constituir não apenas como instituição, mas como território cultural aberto à cidade.