
Quando saiu o anúncio de que Kara Walker representará os Estados Unidos na Bienal de Veneza de 2026, a notícia chegou carregada de uma ironia que a própria artista, conhecida por seu talento para expor contradições americanas, certamente não deixaria passar. Walker construiu toda uma produção a partir de silhuetas negras em papel que reconstroem, com uma violência visual controlada e perturbadora, as estruturas de poder da escravidão e de suas heranças contemporâneas. Escolhê-la como representante nacional é, ao mesmo tempo, um gesto de reconhecimento legítimo e um paradoxo institutivo.
Nascida em 1969 em Stockton, Califórnia, e formada na Rhode Island School of Design e no Atlanta College of Art, Walker emergiu no cenário artístico americano nos anos 1990 com uma linguagem que desconcertou tanto o establishment branco quanto parte do ativismo negro. Suas silhuetas recuperavam a estética vitoriana do recorte em papel para mostrar cenas de abuso, submissão e resistência no Sul escravagista. Imagens, enfim, que tinham o poder perturbador de parecer simultânea e contraditoriamente belas e horrorosas. A crítica Betye Saar e outros artistas afro-americanos mais velhos a atacaram publicamente por considerar que ela explorava traumas coletivos de forma esteticamente complacente. Walker respondeu continuando a trabalhar.
Desde então, sua obra expandiu em escala e suporte. A instalação monumental em açúcar derramado no Brooklyn, em 2014 — uma esfinge feminina negra de quinze metros dentro de uma antiga refinaria de açúcar — foi vista por mais de cem mil pessoas e tornou-se um dos trabalhos mais debatidos da última década americana. Acontece que Walker levou a história econômica do açúcar e do trabalho escravizado em presença física, o que obrigava o visitante a circum-navegar o corpo como quem navega uma história que preferia esquecer.

A escolha para Veneza acontece num momento particular dos Estados Unidos, um país que debate hoje a sua relação com a memória histórica e onde legislações estaduais tentam restringir o ensino de história racial nas escolas. Enviar Walker a Veneza nesse contexto é, queiram ou não os que tomaram a decisão, um posicionamento. O Pavilhão Americano de 2026 não vai mostrar uma artista decorativa. Vai mostrar uma artista que faz da memória histórica um material tão concreto quanto o açúcar, o papel e a tinta.
Ainda não há detalhes sobre o projeto específico que Walker desenvolverá para a Bienal. Mas a história de sua trajetória sugere que ela não desperdiçará o espaço — e nem a contradição.