Alberto Pitta é um dos nomes centrais da cultura visual e estética de Salvador e seu carnaval, onde atua há mais de quatro décadas criando estampas, figurinos, adereços e narrativas visuais para blocos afro, afoxés e indígenas a partir de uma linguagem própria de serigrafia. Sua produção avançou do carnaval para exposições e mostras internacionais, consolidando seu trabalho no diálogo entre cultura popular, religião afro-diaspórica e arte contemporânea como forma de contar histórias e afirmar identidades negras nas ruas da cidade e por onde passa.
Porque, para ele, “são nossas histórias contadas. É o pano como passaporte, o pano como tatuagem, o pano como segunda pele.”
O ARTEQUEACONTECE visitou o ateliê de Pitta, em Salvador. Lá, terreiro e espaço sede do projeto Museu da Vizinhança, exemplifica a proposta poética e artística do soteropolitano nascido em 1961. É espaço de contato com a arte, de encontro entre criativos e a comunidade e de celebração da festa popular.

Durante a conversa, Pitta mostrava tecidos, contava e recontava histórias, sempre empolgado e com um sorriso no rosto. “Às vezes repito, porque vou esquecendo. Quando eu vejo, é sempre uma coisa nova para mim. Ou melhor, renova”, revelou. E é justamente esse olhar que se renova uma das marcas de seu projeto.
Filho de Mãe Santinha de Oyá, líder espiritual e bordadeira, cresceu imerso nas práticas do candomblé e no universo dos tecidos, que moldaram sua formação estética e simbólica desde muito jovem. Essa base foi determinante para sua produção visual a partir dos anos 1980, quando começou a criar estampas, figurinos e adereços que se tornaram ícones dos principais blocos afro do Carnaval de Salvador, como Ilê Aiyê, Olodum e Filhos de Gandhy, até criar o Cortejo Afro. Tal trajetória o posiciona como um dos artistas mais influentes da cultura visual brasileira e figura que circula entre os mais diversos espaços artísticos.

No cenário contemporâneo da arte, Pitta se distingue por integrar saberes tradicionais e práticas experimentais. Enquanto muitos artistas de sua geração dialogam com a arte contemporânea a partir de linguagens pictóricas ou conceituais, Pitta faz do tecido e da serigrafia não apenas um suporte, mas uma plataforma de educação estética e política, conectando história, ancestralidade e experiência coletiva. Essa singularidade se traduz tanto nas ruas de Salvador quanto em instituições de arte nacionais e internacionais, como a 36ª Bienal de São Paulo e exposições no Palais de Tokyo, em Paris. “Havia uma cobrança de que eu transportasse o meu trabalho da base, que é o tecido, para uma outra plataforma, que é a tela. Mas sem perder a essência, que é justamente a serigrafia”, disse durante a entrevista. Hoje, ele é representado pela galeria Nara Roesler.
A relação de Pitta com Salvador é inseparável de sua obra: a cidade e suas tradições não são apenas cenário, mas matéria viva de suas criações, que contribuem para afirmar identidades e narrativas historicamente marginalizadas. Em um momento em que artistas contemporâneos valorizam cada vez mais a herança cultural como forma de resistência e afirmação, Pitta se firma como referência para gerações mais jovens, ao mesmo tempo em que sua trajetória é celebrada em eventos acadêmicos e culturais na própria capital baiana, reforçando o papel central de Salvador. O artista está, inclusive, em cartaz com “Alafiou”, no MAM Bahia, mostra que reúne 45 anos de sua produção. Mais que isso, é um indicativo do que o artista chama de “retomada” da cena artística na cidade, com mais galerias e instituições voltadas à produção de seus conterrâneos.

O percurso distingue Pitta de muitos de seus contemporâneos no Brasil ao tensionar fronteiras entre arte, design e cultura popular. Enquanto artistas como o artista e amigo pessoal Vik Muniz, por exemplo, transformam materiais inusitados em imagens de forte impacto visual e trabalham mais explicitamente com o circuito museográfico e galerístico internacional, Pitta situa seu fazer no “corpo” do carnaval e nas práticas coletivas, instaurando um diálogo entre saberes tradicionais e a arte contemporânea institucional.
Durante a conversa, que você confere a seguir, Alberto Pitta revela que já pensa o carnaval de 2027, do poder da imaginação sobre o sonho e de como a Bahia está bem.
AQA: Como é sua atuação em Salvador, de um artista que vive a cidade?
Alberto Pitta: Não basta você ser artista de galerias importantes, estar num lugar e não interagir com a comunidade. Então, a ideia sempre foi estar junto com a comunidade, de acessar, dar oportunidades. E, com esse nosso projeto, o Museu da Vizinhança, tem a possibilidade do ensino através da arte, da estética. E das crianças, sobretudo, que são o futuro, terem acesso a tudo isso. Essa é a parte social. O resto é a herança da minha mãe, que era uma bordadeira e educadora. Por conta dela terminei entrando nesse mundo e fazendo tecidos, o branco sobre o branco, vendo bordado em richelieu a vida inteira.
AQA: Para carnaval?
Pitta: Não, para o candomblé. Ela fazia richelieu, sabe o bordado? Ela era uma bordadeira, então fazia todas as indumentárias, não só da casa como de outros lugares, outras pessoas e amigos que pediam. Eu só fiz um deslocamento estético, trouxe para a serigrafia. E agora, com a pesquisa mais profunda, para o meu trabalho mesmo, de pintar as telas do branco sobre o branco.
Sou um artista muito conhecido por fazer os panos dos blocos afro. São décadas fazendo. Os tecidos mais recentes, colaborando com o Ilê Aiyê, o Afoxé Filhos de Gandhy, o Malê Debalê. No Olodum, fiquei 15 anos assinando os panos. Na época de Paul Simon, de Michael Jackson. Eu estava lá, naquele movimento todo do bloco. Com isso, fiz vários grupos, outros que não são tão conhecidos, mas que a gente vê importância em assinar, em colaborar. Eu venho dessa história, desse carnaval de resistência, que é o carnaval dos blocos afro, dos Afoxés. É o que marca, é onde as pessoas mais me conhecem.
Com relação à arte contemporânea, ao mercado internacional de arte plástica, isso vem com a pandemia. Há cinco anos, disse que queria entrar nesse mercado. E entrei pela galeria Nara Roesler.
AQA: Por que você decidiu entrar nesse mundo das galerias?
Pitta: Primeiro, para mudar um pouco de cenário. Ir para outras praças com o que eu faço. Também porque entendi que estava na hora. Havia ali uma cobrança de que eu transportasse o meu trabalho da base, que é o tecido, para uma outra plataforma, que é a tela. Mas sem perder a essência, que é justamente a serigrafia. Meu trabalho é serigrafia. Minhas telas são serigrafias.
Eu vou lá, a gente pinta, faz as leituras, traz os símbolos, mas a serigrafia é a primeira coisa. São telas que você vê 30 impressões diferentes.
Mas é essa textura que garante. Você estampa, aparece aqui, mas sumiu ali um pouco, apareceu lá em cima. Fica uma coisa meio mágica, só de quem sabe, de quem tem a técnica da serigrafia.

AQA: A exposição no MAM Bahia, quando perto, você vê alguma coisa. Mais distante, vê outra. É incrível.
Pitta: E aí você vê, entende? Você tem que ficar ali. Vai descobrindo, sim.
AQA: Na exposição do MAM, tem uma grande amostra de tecidos de vários momentos. Teve uma mudança estética nesse período, algo marcante ou que se conserva?
Pitta: Acho que se conserva. Dentro do conceito visual do que fazem os blocos, há uma conservação. Se você pega o tecido do Ilê Aiyê, não obstante o fato de hoje ser Mundão, o artista que faz o Ilê Aiyê, hoje há uns 10, 15 anos. Mas antes era o J. Cunha.
Claro que ali tem uma diferença do artista, dos artistas, do J. Cunha, mas o princípio é o mesmo, que é o da comunicação, o fato de você contar histórias através dos panos a cada ano. Não é o pano pelo pano. Quando veste o pano do Ilê Aiyê, você está trazendo ali minhas histórias. O tecido Malê Debalê conta tudo. São nossas histórias contadas. É o pano como passaporte, o pano como tatuagem, o pano como segunda pele.
Porque quando você porta um tecido de um Ilê Aiyê, de um bloco afro, e você circula pela cidade, você tem um outro tipo de liberdade e autonomia. Porque ali é a sua figura e toda uma representação mesmo.
E toda uma representação que os blocos afro conseguem passar, conseguem manter essa tradição, conseguem fazer com que Salvador seja importante no carnaval. É muito forte o carnaval para a gente. Nunca é o carnaval só pelo carnaval.
AQA: Sou completamente apaixonada pelo guarda-sol. Do Cortejo Afro.
Pitta: Que é um símbolo de realeza. O cortejo tem como slogan a frase “elegantemente sofisticada”, porque quis chegar nesse lugar. É muito sofisticado. Da elegância e da sofisticação. A elegância não custa caro, a sofisticação, sim.
AQA: Qual é a diferença?
Pitta: A sofisticação é cara. A elegância chega em qualquer um. É como você pensar a questão do sonho e da imaginação. A imaginação te leva muito mais longe do que o sonho. Eu nunca sonho, eu imagino. Porque isso mexe comigo o tempo inteiro. Sonho é consolidação. Imaginação você está o tempo todo buscando. Eu não estou sonhando aquela árvore. Estou imaginando aquela árvore. O trabalho é assim. Quando você começa a fazer um tecido, você imagina.
Estou imaginando aqui como é que as pessoas vão ver essa roupa desse ano. Quando eu vou chegar na rua, já tem uma realização, mas agora não. É você entender esses processos, porque tudo é processo. Você tem que estar muito atento a perceber essas coisas. Eu gosto disso. E tudo termina sendo desafio. Você não fica sentada na poeira. Tudo é filosofia.
AQA: Conta um pouco mais desse espaço todo aqui?
Pitta: Aqui é o espaço do quintal do terreiro Ilê Axé Oyá. É um espaço que minha mãe comprou. Ela foi comprando esses espaços que, dentro do projeto do Estado, não ia fazer mais nada com isso aqui. Tudo lá em cima, é um barracão Lina Bo Bardi, com adaptação do Marcelo Suzuki. É único no Brasil. E é baseado nas construções do Benin. E Benin é o tema do Cortejo Afro, para o carnaval. Nós resolvemos homenagear o antigo Dalmé, o reino do Benin.
AQA: E as histórias, o tema, como decide?
Pitta: Eu sempre decido em pleno carnaval. Por exemplo, para 2027 já estou pensando no tema.
Nesse ano, o tema é o Benin e é a primeira vez que o Cortejo escolhe um país africano para homenagear. Os temas sempre foram muito conceituais. Tema tipo casa, carne, habitação, para falar sobre a importância da casa própria, a situação do próprio país.
Comida e tradição, para falar sobre fome e a mesa, para falar sobre a comida ou a mesa enquanto o espaço define status e posições. Então é sempre político nesse sentido, para falar sobre a comida de santo, que é diferente da comida do cotidiano, no candomblé.
Esse ano resolvi homenagear o Benin, porque esteticamente sou apaixonado, pelas coisas e histórias. Tem histórias muito fortes com as danças, com as cobras e com os babás. A gente vai buscar, de alguma forma, levar para o carnaval.

AQA: E a cena artística de Salvador. Como você acha que é esse funcionamento nesse momento?
Pitta: A sociedade sofre de falta de investimento. E está rolando toda uma movimentação de outras galerias investindo mais, de outras pessoas vindo mais para a cidade. Na verdade, o que está havendo é uma retomada, porque em algum momento ela já foi forte, importante. Enfim, acho que está retomando, mas de uma forma diferente, porque o que está acontecendo é que as galerias do Sul estão vindo para cá, a Nonada, a Galatea. Eu considero isso positivo. É sinal de que há um interesse manifesto pelo que a gente faz.
Estão entendendo a Bahia como um pólo, como um mercado, que sempre foi. Claro que aproveita o verão, está todo mundo aqui, inclusive os paulistas, os endinheirados vêm para o lado de cá e podem comprar nas galerias de Rio e São Paulo, e aqui. Só que aqui eles incorporam os artistas do lugar. Tem o Zé Adário, que é um artista com mais de 80 anos, hoje está na Galatea e que é importante dentro do mercado. Tem o próprio Bauer Sá, que é um fotógrafo. Essas galerias e esses galeristas estão descobrindo artistas da Bahia.
E talvez galerias da Bahia não tenham visto. Isso é uma questão. Quando você traz para cá uma exposição grande como a do Vik Muniz, a Beatriz Milhazes, é importante.
Se houvesse investimento maior…e isso é um pecado. Quando você fala Estado, você vai direto nos órgãos e nas secretarias que lidam com isso que ainda não percebem a importância. Se você for ao centro histórico, você vai ver que a Baixa dos Sapateiros está com os imóveis 90% fechados, e muitos desses são imóveis do Estado, imóveis públicos. Na minha opinião, deveria fazer uma chamada aos artistas visuais, sobretudo aqueles que ficam no Pelourinho, expondo na rua.
Mas, se você ver, já está se formando um circuito, com a galeria de Ernesto Bittencourt, ali tem o MAB, tem o MUNCAB, tem a Galatea também, já chegando à Praça Castro Alves, acho que vão surgir outras coisas nesse lugar.
Ou seja, acho que a Bahia está bem. A Bahia vai bem. A gente está sempre bem, de alguma forma, a gente termina dando conta disso.
Por Luana Daltro e Felipe Pessota.