Art Basel Qatar: destaques de uma estreia que redesenha a arte contemporânea na MENA

A Art Basel Qatar inaugura sua primeira edição em um momento de consolidação do Qatar como um dos principais polos culturais do Oriente Médio. A feira se insere em uma…

A Art Basel Qatar inaugura sua primeira edição em um momento de consolidação do Qatar como um dos principais polos culturais do Oriente Médio. A feira se insere em uma estratégia mais ampla de investimento em instituições, acervos e eventos internacionais que vêm redesenhando o papel da região MENA no circuito global da arte contemporânea.

Diferente de outras edições da Art Basel, a feira em Doha surge já integrada a um ecossistema institucional robusto, que inclui museus, fundações e políticas culturais de longo prazo. Esse contexto se reflete no recorte curatorial da edição inaugural, que privilegia práticas artísticas ligadas a território, memória, corpo e relações de poder, temas recorrentes na produção contemporânea da região e do Sul Global.

Ao reunir artistas e galerias que operam a partir desses eixos, a Art Basel Qatar aponta para um reposicionamento do mercado local e internacional, ampliando a visibilidade de produções historicamente sub-representadas e fortalecendo o diálogo entre cenas regionais e circuitos globais.

De 5 a 7 de fevereiro, com pré-visualização a partir de 3 de fevereiro em Doha, a Art Basel Qatar estreia em Doha com 84 apresentações de artistas representados por 87 galerias de 31 países e territórios, incluindo vozes que aparecem pela primeira vez no circuito global.

A seguir, uma curadoria do AQA com os principais destaques da feira:

Tracing Lines of Growth (2024) – Lina Gazzaz | Hafez Gallery

Lina Gazzaz, Tracing Lines of Growth, 2024. Cortesia da Hafez Gallery.

Lina Gazzaz trabalha com folhas de palmeira descartadas, costuradas à mão com fios vermelhos e pretos. À primeira vista, a obra parece simples em seus gestos materiais, mas ela carrega camadas de significado: cada linha costurada registra tempo, esforço humano e a passagem natural do vegetal. No contexto da Art Basel Qatar, Gazzaz insere práticas ecológicas e artesanais do Golfo Pérsico em um diálogo contemporâneo, mostrando que tradição e modernidade podem coexistir. A obra também ressoa no campo da memória: a palmeira se torna testemunha e participante de processos de crescimento, degradação e renovação, lembrando que a arte pode mapear ritmos invisíveis da vida cotidiana.

Footnotes (2026) – Aiza Ahmed | Sargent’s Daughters

Aiza Ahmed, Who Can Do It Better? (detalhe), 2024. Cortesia da artista e da Sargent’s Daughters.

Os músicos que permanecem à margem do ritual cotidiano ganham protagonismo na instalação de Aiza Ahmed. Inspirada na cerimônia diária da fronteira Wagah-Attari, entre Índia e Paquistão, a artista desloca o foco da grandiosidade do espetáculo para aqueles que sustentam seu ritmo e energia. Pinturas em musselina suspensas e figuras de madeira transformam o espaço em um percurso atravessável, convidando o espectador a se mover entre os gestos e imagens, atravessando limites físicos e simbólicos. O trabalho revela as hierarquias implícitas no nacionalismo performativo e propõe uma reflexão sobre visibilidade, poder e participação.

I, Pet Lion (série em andamento, 2024–2025) – Mohamed Monaiseer | Gypsum Gallery

Mohamed Monaiseer, I, Pet Lion (Tanks Arena), 2025. Cortesia do artista e da Gypsum.

Mohamed Monaiseer, I, Pet Lion (Galaxy Attack), 2025. Cortesia do artista e da Gypsum.

Monaiseer observa como imagens militarizadas penetram a vida cotidiana, das bandeiras e jogos infantis à heráldica nacional. Em I, Pet Lion, bordados e pinturas combinam símbolos e ornamentos decorativos para revelar a estética por trás da autoridade e da violência institucionalizada. A disposição das obras em estilo salão remete à lógica de museus militares, mas o efeito é subversivo: o público percebe como histórias e estruturas de poder são naturalizadas visualmente. A obra se torna um convite à reflexão sobre memória, identidade e o papel da estética na construção de narrativas políticas.

Living: Architectures of Memory (2026) – Bouthayna Al Muftah | Al Markhiya Gallery

Bouthayna Al Muftah, Living: Architectures of Memory (detalhe). Cortesia da Al Markhiya Gallery.

Bouthayna Al Muftah, Living: Architectures of Memory (detalhe). Cortesia da Al Markhiya Gallery.

O trabalho da qatariana Al Muftah parte de uma cena cotidiana: mulheres se preparando juntas antes do fim de semana – e a expande para reflexões sobre identidade e memória cultural no Qatar contemporâneo. O thobe central, confeccionado com materiais naturais, funciona como um elo entre tradição e contemporaneidade, enquanto ornamentos herdados articulam ancestralidade e pertencimento. A instalação transforma experiências privadas em debate público sobre herança cultural, evidenciando a tensão entre continuidade e globalização.

Psycho-Maps and Metaphysical Bodies – Souad Abdelrasoul | Gallery Misr

Souad Abdelrasoul, A Woman Present In Primitive Time, 2025. Cortesia da artista e da Gallery Misr.

Corpos femininos em constante mutação fragmentam-se ou se fundem a elementos vegetais e animais, criando imagens liminares entre humano e não-humano. A série funciona como uma cartografia simbólica, explorando mito, memória e relações com o ambiente natural. Ao desafiar narrativas lineares, as obras propõem experiências de suspensão e reflexão, questionando identidade e corporeidade. Souad Abdelrasoul amplia a percepção sobre o corpo como território de experimentação e comentário social, oferecendo um contraponto crítico às obras que privilegiam performatividade ou monumentalidade.

Bodies Do Not Resolve – Maryam Hoseini | Green Art Gallery, Dubai

Maryam Hoseini, Spine Scream, 2025. Cortesia da artista e da Green Art Gallery. Foto: Sebastian Bach.

As telas de Maryam Hoseini criam um espaço onde a percepção se altera: pisos ambíguos, formas fragmentadas e motivos que se multiplicam desafiam o espectador a se orientar e a aceitar a instabilidade. Inspirada em textos cosmológicos do século XIII de Zakariya al-Qazwini, a série Bodies Do Not Resolve transforma a experiência visual em reflexão sobre a condição contemporânea, mostrando que tornar-se é um processo contínuo, sem ponto final. A artista explora como arquitetura, corpo e narrativa se entrelaçam, revelando o potencial das formas liminares de questionar identidade e transformação.

Water Witness (2025) – Nida Sinnokrot | Carlier Gebauer, Berlim e Madrid

Nida Sinnokrot, vista da exposição na 16ª Bienal de Sharjah, Old Jubail Market, Sharjah, 2025. Cortesia do artista e da Sharjah Art Foundation. Foto: Shanavas Jamaluddin.

Nida Sinnokrot parte da ideia de que tecnologia sustentável depende de mitologias sustentáveis e dos rituais que estruturam a vida socioecológica. Em Water Witness, esculturas totêmicas combinam cerâmica, tubos de aço, válvulas de irrigação e outros objetos reaproveitados. Inspiradas em amuletos palestinos, as peças funcionam como testemunhas e alertas, ocupando o espaço da feira com uma presença que mistura ritual, infraestruturas de poder e narrativas de controle, convidando o público a refletir sobre o entrelaçamento de política, tecnologia e tradição.

Com sua edição inaugural, a Art Basel Qatar se afirma como novo ponto de articulação no sistema internacional de arte, contribuindo para a redistribuição de centralidades e ampliando o debate sobre quem produz, circula e valida a arte contemporânea. Entre instalações, pinturas e esculturas, a experiência se afirma como um registro relevante do que está em evidência e do que continuará a orientar debates e práticas no cenário da arte.

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