Nascido em Guará, no Distrito Federal, David Almeida formou-se em Artes Plásticas pela Universidade de Brasília e construiu uma pesquisa que se desdobra em diferentes suportes, como tela, linho, madeira, cerâmica e gravura. Suas obras lidam com a relação entre corpo, espaço e memória, e dão forma a imagens que se movem entre o território íntimo e a paisagem coletiva. Nesse percurso, traduz com afeto a visualidade das paisagens brasileiras, da cidade ao interior.
Em 2025, além de seguir com sua produção em pintura, Almeida também assinou a curadoria da coletiva Vaquejada da Meia-Noite na Almeida & Dale (galeria que o representa), reunindo artistas de diferentes gerações ligados ao Ceará. A mostra deu ao espaço um ambiente gótico-sertanejo, permeado por imagens de fé, luta e sobrevivência – um desdobramento direto das investigações pessoais do artista sobre cultura e memória.
Nesse processo, Almeida revê a herança pictórica local. Em vez de seguir os cânones que se consolidaram a partir do século XVIII, retoma elementos da tradição católica e do rococó europeu para reconfigurá-los, colocando em primeiro plano a materialidade da pintura, mais do que a narrativa.
Entre o real e o imaginário, entre a figuração e a abstração, seu trabalho respira espiritualidade e mistério, em que memória, corpo e percepção se encontram de forma orgânica com a cultura e o afeto.
Tão visceral quanto as paisagens que inspiram suas pinturas, a música é parte fundamental de seu processo criativo. Dos atabaques do grupo soteropolitano Tincoãs aos versos de Djavan e às composições de Villa-Lobos, sua playlist percorre diferentes tempos da música brasileira. Reúne nomes clássicos como Baden Powell, Dorival Caymmi, Maria Bethânia, Tim Maia e Fagner, mas também se abre para vozes contemporâneas como Terno Rei, Lupe de Lupe, Aiure, Enema Noise e maquinas. Entre esses polos, aparecem ainda artistas como Lia de Itamaracá e Renata Rosa. A seleção, formada em grande parte por títulos de tom mais introspectivo, acompanha o ritmo de seu dia a dia no ateliê.
Indicado ao Prêmio PIPA em 2018, o artista já participou de exposições no Brasil e fora dele, de São Paulo a Estocolmo. Entre telas, cerâmicas e curadorias, o que se percebe é um trabalho que prefere o desvio ao caminho linear, sempre atento ao atrito entre paisagem e imaginário.