Quando a equipe do ARTEQUEACONTECE foi recepcionada no endereço da Galleria Continua em São Paulo, no bairro de Higienópolis, mal percebemos que Osvaldo González estava sobre as nossas cabeças literalmente. Ao lado da porta de entrada de correr, tinha um andaime em que o artista cubano, lá do alto, alterava os vidros com as fitas adesivas que marcam seu trabalho. Disse que, quando analisou a distribuição das obras no espaço, intervir nos vitrais por onde a luz entrava pareceu essencial. E para quem conhece a obra dele, faz todo sentido.
Osvaldo González construiu uma trajetória em que suas obras retratam espaços arquitetônicos em telas de acrílico sobrepondo fitas adesivas (daquelas marrons, tom pastel). E “luz, porque a luz é algo muito importante no meu trabalho”. A partir de cenários muitas vezes reais e outros imaginários, ele constrói uma poética própria, uma reinterpretação do espaço a partir da sua vida íntima. O que se vê como resultado são locais vazios de pessoas e ressignificados por ele, em que seu interior se aflora, e que se completam no encontro com o público.

Osvaldo Gonzável estudou no Instituto Superior de Arte, em Havana, “com a forma de ensinar arte em Cuba muito relacionada a um exercício conceitual e intelectual, por assim dizer”, contou em entrevista exclusiva ao AQA. Mas sua relação com o conceitual foi posta em suspenso ao se defrontar com elementos mais sensoriais. “Porque no final, a arte, uma das suas funções, é gerar sensação”, compartilhou.
E sua reflexão sobre a arte ganhou novos contornos quando retornou para Camagüey, cidade que nasceu em 1982, mais precisamente à casa dos sogros. Ali, no regresso ao seu povo, a relação com o espaço, o objeto e a perspectiva de quem habita uma casa e pertence àquele espaço reverberou em impacto em sua obra. Surgia a ideia de “diário de vida”.
O passo para retratar escadas estava dado. “Você sobe e desce algumas escadas e nunca percebe o quão bonito pode ser ficar um dia detido, ver como a luz se projeta nas escadas e desce pelos degraus.”. Por isso e por seu apreço por arquitetura, Oscar Niemeyer é figura presente em suas referências e projetos do arquiteto brasileiro surgem diversas vezes na mostra “Diário”, em cartaz na Galleria Continua, até o dia 14 de março.
Em uma das paredes da galeria, quatro obras se relacionam diretamente com o sentido da vida. A última, Osvaldo chamou de “Antes do Silêncio” por estar relacionada com a ideia da morte. É um edifício de Niemeyer na França. “Não há um consenso de que tenha sido o último projeto do brasileiro em vida, se terminou pós-morte. As opiniões divergem. A questão é que as imagens são pretextos para representar uma ideia concreta.”. González falava do pavilhão Château La Coste, última obra concebida antes do falecimento do arquiteto em 2012.
Em uma de suas cinco viagens para o Brasil, Osvaldo fez questão de conhecer diversos prédios de Niemeyer, arquiteto que admira pela “introspecção e a grande eloquência de projetos que te levam a se sentir pequeno”.
Ao ouvir a pergunta se as obras representam não só interiores de espaços, mas do artista, González respondeu: “A vida é um trânsito. Eu sempre penso que é um trânsito em ascendente, nunca para baixo. Ou, de alguma maneira, idealizamos que a vida tenha que ser para cima. Você sempre está procurando a luz, se afastando da sombra. Para que ir lá? Já temos a sombra dentro.”.
A representação de escadas surge então de forma simbólica e constante no trabalho de González, nas mais variadas formas e perspectivas. “Penso nas escadas como esse elemento que conecta tantas coisas, como também o passado com o futuro. O presente é você subindo cada degrau.”.
Ao falar da obra “El Viaje” (2026), em que parte de uma estação de trem em Nova York para criar uma nova imagem, em que o horizonte está repleto de montanhas, Osvaldo traz a imigração, o deslocamento e o desprendimento para a cena. Ele, que hoje mora na região metropolitana de Madrid, na Espanha, e tem formações montanhosas como vista das janelas, confessa: “as montanhas são como autorretratos”.

Sua proposta artística é permeada pela necessidade de ver a realidade de outros pontos de vista. E isso passa também pelos materiais de baixo custo e pela forma que pensa a linha.
O políptico em 16 partes e em uma grande escala, que tem o mesmo nome da exposição, resume sua atenção às entradas de luz e às possibilidades de percursos, mas principalmente ao elemento mais básico: a linha, que desenha corredores, escadas e delineia caminhos.

“O diário é um objeto de papel, de muitas lâminas de papel, que está cheio de linhas dentro. E com essas linhas se constrói a vida como registro. No final, o diário é esse espaço onde você vai contando uma história de vida.”.
Cada obra na mostra na Galleria Continua contempla uma lembrança, um momento da vida ou uma foto que tirou ou que um amigo enviou. São retratos de seus passos pelo espaço que habita. As montanhas são, assim, a escada da natureza. E Osvaldo González dá um passo por vez, atento ao entorno e ao interno, para transbordar em cenários repletos de sentidos e sensações da própria experiência de viver. Cabe ao público olhar para a obra e refletir sua relação com o espaço. É o design de interior de um artista.
