
A liderança política da Finlândia não participará da Bienal de Veneza enquanto o pavilhão russo estiver presente, segundo declaração do Ministério da Educação e Cultura do país. A ministra de Ciência e Cultura, Mari-Leena Talvitie, cancelou sua presença no evento e não realizará a abertura oficial dos pavilhões finlandês e nórdico — cerimônia que, por tradição, cabe à ministra. Em seu lugar, funcionários públicos representarão o país.
O gesto é político, não cultural. O boicote finlandês não afetará o pavilhão do país nem a artista Jenna Sutela, que apresentará Aeolian Suite, obra com curadoria de Stefanie Hessler concebida como um ambiente multissensorial que transforma o espaço num território de sons e movimentos. A ministra foi direta ao justificar a decisão: promover a arte e a expressão cultural finlandesa segue sendo uma prioridade — mas sua presença oficial, não.
Em março, Talvitie havia sido uma das 22 ministras europeias a assinar uma carta ao presidente da Fundação Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, pedindo que reconsiderasse a participação russa. O documento expressava “profunda preocupação” de que o pavilhão russo projete “uma imagem de legitimidade e aceitação internacional em contraste flagrante com a realidade da guerra da Rússia contra a Ucrânia e a destruição do patrimônio cultural ucraniano”.
A pressão não vem apenas dos países signatários. A Comissão Europeia avisou que a Bienal pode perder um financiamento de €2 milhões destinado à edição de 2028 caso não responda adequadamente às alegações de violação das sanções da UE contra a Rússia. A alta representante da UE Kaja Kallas classificou a presença russa como “moralmente errada”, e 37 parlamentares europeus também pediram a suspensão dos recursos.
A Fundação Bienal mantém sua posição: a participação da Rússia foi uma decisão autônoma da instituição, que garante que nenhuma norma foi violada e que as sanções foram integralmente respeitadas. A edição de 2026 marca o retorno da Rússia ao evento após a invasão em larga escala da Ucrânia em 2022 — quando os próprios curadores e artistas escolhidos pelo país se retiraram em protesto. Em 2024, o pavilhão russo foi cedido à Bolívia.
O que começou como um debate institucional se converteu, às vésperas da abertura, numa sequência de retiradas simbólicas que redefinem o significado de estar — ou não — em Veneza.