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SUMMARY:"Vigília" de Jorge Enciso na Galeria Leme
DESCRIPTION:Vista da exposição. Imagem / Divulgação\nVigília: estado de manter-se acordado; ato de velar algo ou alguém; organização coletiva em torno de uma reflexão ou protesto. Embora polissêmica\, em todas as acepções dessa palavra\, a ação de manter-se em vigilância é a que mais se repete. Vigília\, como ação contínua\, se manifesta no corpo numa tentativa insistente em não permitir que exercício de atenção falhe. Essa miríade de significados e de nuances também aparece no conjunto de obras reunidas na primeira exposição individual do artista paraguaio Jorge Enciso no Brasil. \nVigília\, como palavra e conceito sínteses\, está presente tanto de maneira matérica quanto conceitual na prática de Enciso. O fazer da cerâmica exige um atento cuidado durante o processo de feitura com a argila\, uma tarefa em que é exigida tanto tônus muscular para o manejo da massa que forma as superfícies tridimensionais quanto delicadeza no manuseio de um material maleável que precisa ser erigido milímetro a milímetro\, dando atenção à forma\, ao detalhe e ao acabamento. Todo esse procedimento ordena uma dedicação de longa duração\, em que há uma negociação constante entre a argila e o corpo do próprio artista\, a forma almejada pela criação e a própria dinâmica natural e elástica do material esculpido. \nO uso da técnica do esgrafiado\, característica fulcral nas obras recentes de Enciso\, também demanda um atento procedimento de vigilância. Enquanto grava as formas no corpo das peças\, o artista minuciosamente tece tramas\, cria linhas de tensão ou de fuga e estabelece um vocabulário visual que dribla um fácil aprisionamento do seu vernáculo escrito. Ora essas gravações lembram espécies de colmeias de abelhas – estabelecendo uma relação imagética com o fazer coletivo\, qualidade fundamental para a prática da cerâmica de ascendência guarani\, em que tudo é ensinado de maneira oral atravessando distintas gerações; ora trazem linhas posicionadas lado a lado\, que com a sinuosidade da superfície das peças criam espécies de zonas de convergência visuais. Assim\, dentro do universo do artista\, a escultura em si se sustenta como uma espécie de corpo\, enquanto a escrita se converte na pele\, onde estão inscritos acontecimentos e marcas de individualização e diferenciação. \nNesse sentido\, Enciso nos conduz a enxergar a contrapelo a escrita e a geometria através de sua escultura. A proposta do artista desafia a ordem lógica de uma prática geométrica meramente mental\, objetiva e asséptica\, dando vazão a um outro lugar que\, embora também tenha um forte pensamento estruturado\, recorre a gestos e retoma práticas culturais plasmadas na oralidade e nos fazeres matriciais. \nAo edificar linha a linha com finas hastes de metal\, ao aglutinar grama a grama de argila com o calor das mãos\, o artista cunha uma espécie de geometria mestiça – que estabelece intercâmbios estéticos entre a História da Arte mais hegemônica com fazeres seculares de sociedades pré-Hispânicas. \nEm obras como “Cabezas exiliadas I”\, o artista vai ainda mais longe nessa investigação. Enciso grava no corpo da escultura trechos escritos que narram cosmologias guaranis sobre a criação do mundo\, da palavra e do vínculo entre humanidade\, natureza e o divino. No entanto\, o que está subjacente a isso é o fato de que o guarani não é uma língua que obedece aos padrões de escrita ocidentais\, sendo necessária uma tradução para o que se chama de “guarani paraguaio”. Essa passagem de uma tradição oral para um registro escrito\, sustentado por um alfabeto alheio à essa tradição\, se constitui com um exercício de idas e vindas entre o conservar de uma cultura através da escrita e\, justamente por isso\, um processo de aculturação. Ao transpor esses trechos para o corpo da escultura\, o artista justapõe por um lado a força da oralidade presente nesses mitos e também no próprio saber cerâmico a que se dedica com o desejo pelo registro e pelo arquivo\, tão incensado dentro de uma prática historiográfica mais ocidentalizada. \nDe forma sofisticada através das suas composições escultóricas\, a vigília realizada por Jorge Enciso é muito mais do que as horas atentas no manuseio das suas obras. Transcende o exercício da espera para que as peças atinjam a temperatura ideal dentro do forno e logo em seguida a expectativa pelo seu resfriamento. A vigília de Enciso aponta para um estado de manter-se acordado para os exercícios da memória e\, sobretudo\, para os processos culturais que promovem assimetrias e apagamentos culturais. O fazer escultórico do artista nos faz lembrar um provérbio iorubá que diz: “Enquanto reza\, vá fazendo”.
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