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“Para não dizer que não falei das flores” de Marcos Roberto na Galeria Lume
23/10/2025 -10:00 até 22/11/2025 -19:00


Marcos Roberto, “DANINHA”, 2025. Crédito: Felipe Brendt
Em “Para não dizer que não falei das flores”, Marcos Roberto transforma o ferro e a ferrugem em matéria de resistência. Ex-metalúrgico, o artista recolhe restos industriais, fragmentos de portões, ferramentas e cercas — resíduos de um país moldado pela extração e pela desigualdade — e os faz brotar novamente, convertendo o aço em seiva. Suas esculturas e instalações nascem da fricção entre trabalho, terra e memória, operando uma inversão poética: o gesto que antes sustentava a máquina agora cultiva a vida.
A exposição reflete sobre o corpo operário como campo de batalha da modernidade — o corpo que sustenta, carrega e é corroído pela lógica da produção. Nas obras de Marcos, esse corpo retorna à cena não como instrumento, mas como força criadora. O ferro que sangra também germina; o facão, símbolo de corte e luta, se quebra em folhas e raízes. O artista propõe uma pedagogia silenciosa, onde o gesto de soldar e torcer o metal se torna modo de reescrever o tempo e o território.
As obras tensionam as relações entre progresso e violência, denunciando as permanências coloniais que seguem estruturando o país. Suas obras evocam a herança do cativeiro, o ciclo do trabalho e a terra transformada em negócio, revelando que a promessa de modernidade ainda repousa sobre bases desiguais.
Entre o ferro e a flor, o gesto de Marcos Roberto é tanto denúncia quanto esperança. Sua prática é uma pedagogia do cuidado, onde o trabalho manual reaproxima o humano da matéria e devolve à arte a capacidade de imaginar futuro.
