“o artista fraco” de Caio Pacela na Janaina Torres Galeria
25/10/2025 -10:00 até 31/01/2026 -16:00


Caio Pacela, “A interscesão dos santos”, 2024. Foto: Jaime Acioli
De 25 de outubro de 2025 a 31 de janeiro de 2026 , a Janaina Torres Galeria, localizada na Barra Funda, em São Paulo, recebe a exposição inédita ‘o artista fraco’, primeira individual do artista visual Caio Pacela realizada na capital paulista, com curadoria de Clarissa Diniz.
A mostra, que explora campos como o da espiritualidade e da transcendência em diálogo com corpo, fé e identidade, reúne pinturas em óleo sobre tela; desenhos em grafite sobre papel; cadernos do artista e textos autorais intitulados ‘notas de culto’, abarcando as diferentes nuances e fases do artista, que opta pelo olhar fenomenológico e convoca o espectador a atribuir sentido às obras, a partir de suas próprias referências
Em sua pesquisa, Caio sacraliza o território da arte quando, literalmente, a equipara ao campo e à própria substância do divino: “A arte não é algo, mas, alguém. E, necessariamente, alguém que não existe. E é esse templo que cultua e louva a inexistência daquela que é.”. Está posto o ponto de partida, do qual o artista convida o espectador a observar e completar suas obras, acessando espaços interiores e individuais, a priori etéreos e impalpáveis, mas que acabam por reverberar em comportamentos coletivos mediados ora pela corporeidade humana (ou não), ora por paisagens da natureza em movimento e fúria. A arte de Pacela convida o público ao exercício do sentir, mas, também, ao de decodificar, sob o entendimento particular, o mistério, o não dito e o não aparente.
Abraçando o paradoxo entre o sublime e o carnal, o artista traz para o protagonismo, de grande parte de suas obras, figuras humanas em estados como o êxtase, a devoção, a angústia, o medo e o espanto. A condição humana é materializada em sua crueza, seja no corpo entregue em simbiose com o coletivo; em cenas que trazem aspectos escatológicos ou de simbologia dúbia entre morte e vida, fenômenos naturais, objetos e animais
Nesse sentido, Clarissa Diniz, curadora da exposição, ressalta o encontro entre a estética da obra e a intencionalidade do artista: “São muitos os gestos que povoam a primeira individual de Caio Pacela em São Paulo. Mãos espalmadas sobre os olhos, braços erguidos, corpos curvados, dedos em riste, mãos impostas, abraços, pessoas girando… Podemos sentir a brisa, a respiração de cada forma de vida. Testemunhamos a úmida e pesada tempestade que se aproxima, abrindo espaço no ar. Faz escuro. Às vezes, amanhece sob o laranja do céu. Enquanto pássaros despencam, corpos levitam. Pessoas e bichos agem em conjunção com as paisagens em que se encontram. O que se revela ao olhar são pequenos acontecimentos de intencionalidades desconhecidas. Somente parte da gestualidade daquelas vidas nos é dada a saber. Acenos de inefável intensidade, e nada mais.”.
O público poderá observar ainda que, embora atravessado, em diversos momentos pela tônica da espiritualidade e transcendência, o trabalho de Caio também se volta a aspectos antropológicos outros, em que o véu do senso comum encobre realidades que traduzem o espírito de nosso tempo.
Entre os trabalhos presentes na exposição estão obras da fase atual, que escancara sua relação com o caráter enigmático do divino, mas, também, apresentam-se produções mais antigas, como as que integram “Exercícios de manutenção do instinto”, série que faz transparecer comportamentos coletivos deflagrados pela tecnologia, mas especificamente as redes sociais. “Nesse caso, imagens relacionadas à trends do ambiente digital são subvertidas e trazidas para a estética formal do desenho em grafite e da pintura em óleo sobre tela, o que pode detonar percepções diversas e imprevisíveis, a depender de quem vê! Desde a identificação ao estranhamento; desde a perplexidade à reflexão sobre aspectos como o sentido de expressão, identidade e coletividade na sociedade contemporânea, por exemplo.”, comenta Janaina Torres, galerista que representa Pacela.
Outro aspecto da obra de Caio é que, se por um lado há um minucioso rigor técnico, ele não caminha na direção de verticalizar e cristalizar o sentido ou de atribuir um valor fixo às temáticas que aborda. Sobre isso, comenta a curadora da exposição Clarissa Diniz: “Graduado em pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ, o virtuosismo técnico de Caio Pacela parece se recusar a significar. Em que pese o arrebatamento das alegorias que tanto identificam a tradição da pintura europeia que formou seu olhar e instruiu sua prática, o artista resiste à tentação de tudo simbolizar, narrar e metaforizar. Rebaixada está a vaidade de afirmar qualidades e verdades, a presunçosa autoridade daqueles que detêm as tecnologias da visibilidade. Pacela não empunha seu pincel para reger o que vemos, o que nos é dito, o que podemos ler: antes, pinta como quem tece uma trama capaz de receber o intensivo sentido do Outro.”
Desse modo, Caio Pacela propõe um diálogo aberto para a atribuição de sentido em uma dinâmica de comunhão entre sua arte, quem a vê e o mistério.
