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SUMMARY:"Eutonia" de Flávio Cerqueira na Simões de Assis
DESCRIPTION:Flávio Cerqueira\, Desenho cego\, 2024. Cortesia Simões de Assis\n\n\n\n\nA Alteridade Sensível \nEm mais de quinze anos de carreira artística\, o trabalho de Flávio Cerqueira tem sido uma investigação multidirecional sobre a existência e a experiência do ser humano na sociedade contemporânea. As esculturas figurativas de Cerqueira são frequentemente estátuas não-monumentais em escala tamanho real\, retratadas como adolescentes entre uma ação na sua própria temporalidade\, ou por vezes explorando a sua própria materialidade. A expressão facial neutra\, juntamente com o vestuário cotidiano das esculturas\, diminui as potenciais interpretações que fazem referência a arquétipos da vida real\, e são\, portanto\, autônomas\, alegóricas e semioticamente indexadas. \nPara Cerqueira\, a adolescência representa o status de indeterminação\, o período de transição da vida que reúne a consciência do eu e do outro\, bem como a mentalidade mista de esperança\, apreensão\, desejo e inquietação em relação ao futuro. É uma condição em que a percepção de si próprio se torna possível ao tornar-se o seu próprio estranho\, citando Walter Benjamin\, “A sensibilidade leva-nos para fora de nós próprios”[i]. Para o público\, a percepção da obra é também um processo de reconhecimento da semelhança na alteridade e de reflexão sobre a sua condição face à alteridade da escultura.  \nAs obras de Cerqueira\, por sua vez\, dialogam com o público por meio de objetos da vida cotidiana que são feitos para serem associados a eles: velas acesas à mão\, balões tocando o teto\, um espelho encostado na parede. Mas o diálogo também pode ser construído com elementos ambientais e não relacionados a objetos\, como água\, tinta\, texto ou\, como em No meu céu ainda brilham estrelas (2023)\, é a luz que passa pelos orifícios do livro fundido em bronze. Esses objetos e elementos atuam como intermediários\, fazendo a ponte entre o mundo das estátuas e o nosso\, por meio do qual Cerqueira convida o público a se posicionar ao lado dos personagens\, permitindo que a experiência da realidade compartilhada promova a narrativa e a comunicação. Como Lilia Moritz Schwarcz observa\, cada uma das esculturas traz “uma história que começa e termina com ela”[ii]. \nVoltando a 2001\, Cerqueira estava entre os 300.000 visitantes das duas exposições históricas da Pinacoteca de São Paulo: Auguste Rodin: Esculturas e Fotografias e A Porta do Inferno. A escolha de Cerqueira pela técnica laboriosa e demorada de fundição de bronze é inspirada no mestre modernista. Cerqueira está interessado na incorporação das condições humanas dentro da materialidade das esculturas\, mas\, em vez de adotar o torso retorcido e a postura corporal teatral do período clássico\, ele estendeu a articulação da escultura para o espaço de exposição\, construindo relações com seu entorno e\, muitas vezes\, correlacionando-se entre si. \nA nova série de trabalhos para a exposição Eutonia\, na Simões de Assis\, em São Paulo\, consiste em seis esculturas e duas peças de parede\, todas criadas em 2024. Ligadas livremente ao tema e à iconografia\, as obras formam um ciclo de contemplações semiautobiográficas sobre a vida: da recepção à contribuição\, da confusão à revelação e da dor à cura. Como o título da exposição sugere\, cada trabalho é um equilíbrio de tensão manifestada e cristalizada na forma de escultura.  \nNunca foi a primeira opção e Não estou no meu passado tratam do enigma da linguagem e do esforço da vida. Ambas as obras também refletem sobre a experiência das temporalidades\, que\, de acordo com Russell West-Pavlov\, está na generatividade da narrativa[iii]. Na primeira obra\, um menino de boné está escrevendo o título na parede. Para Cerqueira\, rejeitar a opção inicial da vida significa romper com o confinamento e a opinião estereotipada dos outros e estabelecer-se no controle de sua vida. Não estou no meu passado é inspirado na escarificação\, uma modificação permanente no corpo tradicionalmente praticada por muitos grupos étnicos na África para transmitir status social e ideologia espiritual. Projetadas para formar cicatrizes no processo de cura\, as marcas de escarificação são tanto o resultado de uma ferida passada quanto uma mensagem para o futuro. E nesse trabalho\, a rejeição não é negar a experiência passada\, mas reconhecer a cura por meio do dinamismo do tempo. \nEm comparação\, Desenho cego mostra uma destruição radical e aguda do corpo. O personagem\, segurando uma ferramenta de escultura na mão direita\, está cortando uma longa ruptura da mão esquerda até o peito\, enquanto seus olhos são apenas várias fendas no rosto. Nesse momento Pigmaleônico invertido\, o autônomo da escultura iniciou um momento surreal de transformação da materialidade\, mas também revelou o processo de escultura frequentemente negligenciado: a textura flexível da argila de modelagem. Enquanto Para voltar a ser eu apresenta uma forma alternativa de restauração\, ouvindo e aprendendo consigo mesmo. \nÉ melhor nem saber e Só eu sei abordam os dilemas da vida social contemporânea e\, mais uma vez\, questionam o discurso “externo” de regulamentação e disciplina. Em ambas as obras\, o ato de saber está voltado para o invisível\, seja o espaço virtual e os acontecimentos por trás da parede da galeria\, seja a entidade que existe apenas parcialmente como duas mãos. Em Só eu sei\, a própria personagem também está incompleta: a carne das pernas está cortada acima dos tornozelos\, os braços estão bem abertos\, mas as mãos estão faltando. Quem tirou suas mãos e quem a forçou a sorrir? A incompletude traz virtualidade e incerteza\, o que ecoa a descrição poética de Foucault da demagogia e do poder de vigilância que nega o corpo para garantir a soberania de uma ideia atemporal\, para adotar um anonimato sem rosto e se tornar um guia para a lei inevitável de uma vontade superior. [iv]   \nE\, finalmente\, em O jardim das dádivas e Revelação cósmica\, encontramos esperança e conforto. Em Revelação cósmica\, o invisível não é mais disciplinador e manipulador\, mas oferece força e sabedoria. Como peça central da exposição\, O jardim das dádivas cria uma ilha meditativa dentro do espaço da galeria\, com o personagem voltado para a frente\, mas regando um jardim às suas costas. Para Cerqueira\, “atrás” é tanto temporal quanto espacial: o jardim simboliza o legado que deixamos para o mundo\, mesmo que seja algo que não vemos com nossos próprios olhos. E como um presente\, o jardim – e talvez também a arte – é um compromisso permanente de reciprocidade com o que recebemos do universo na vida.  \nZoe Diao \n[i] Citado em Michael Taussig\, Mimesis and Alterity: A Particular History of the Senses (Nova York e Londres: Routledge\, 1993)\, 38. \n[ii] Lilia Moritz Schwarcz\, “Flávio Cerqueira\, Um Escultor de Significados” (Galeria Leme\, 2021). \n[iii] Russell West-Pavlov\, Temporalities (Nova York e Londres: Routledge\, 2013)\, 83. \n[iv] Michel Foucault\, “Nietzsche\, Genealogy\, History” em Language\, Counter-memory\, Practice: Selected Essays and Interviews (Ithaca: Cornell University Press\, 1977)\, 158.
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