
Boca de Sol propõe a pintura como organismo luminoso, um corpo que engole a cor e a converte em incandescência. Entre a geometria e o calor, o gesto e a febre, Delson Uchôa fabrica superfícies em metabolismo luminoso. Sua obra digere o legado modernista antropofágico e o devolve como luz localizada, uma energia que nasce da geografia e se distribui como clarão. Ver e engolir se tornam o mesmo ato.
Morando em Alagoas — um dos centros de maior luminosidade do Brasil —, o artista desenvolve o que ele próprio denomina autofagia: um processo em que a pintura devora a si mesma, digere o próprio tempo e o transforma em nova matéria. Essa operação metabólica, que faz das obras organismos em constante regeneração, também impulsiona a leitura curatorial de Boca de Sol: uma prática que pode ser pensada como solarfagia, quando a luz passa a ser a substância devorada. Aqui, é o sol que alimenta a pintura; ele a faz ferver, secar, queimar, arder em cor. A solarfagia é o modo como a obra se deixa atravessar pela geografia, metabolizando o calor, a radiação e o brilho, ultrapassando o limite visível.
No Brasil, a noção de antropofagia foi convertida pelo modernismo em metáfora de identidade nacional. A ideia de devorar o outro e transformá-lo em cultura “brasileira” criou um mito de origem que acabou reforçando hierarquias e silenciando as cosmologias que o gesto dizia evocar. Em Boca de Sol, essa herança é revisitada de modo oblíquo. A autofagia de Uchôa não devora o outro, mas o próprio tempo. A solarfagia se aproxima mais de uma irradiação, um processo de emanação. Se o modernismo transformou o ato de comer em discurso de poder, aqui o metabolismo da pintura dissolve o poder no calor. O que se digere não é diferença cultural, e sim luz, cor, poeira, o próprio espaço do mundo.
