
Em “Arquiteturas da Aguá”, Osvaldo Gaia transforma a escuta da água em matéria escultórica. Inspirado na convivência com mestres curralistas da região amazônica — artesãos e arquitetos da água que constroem engenhos de pesca guiados pelas marés — o artista propõe uma travessia entre técnica, corpo e paisagem. Suas esculturas, feitas de madeira de demolição, linha e chumbo, prolongam uma sabedoria ribeirinha ancestral, onde o gesto de construir é também o gesto de escutar.
No centro da exposição cinco obras se articulam como um labirinto aquático, convidando o visitante a mover-se pelo corpo, e não apenas pelo olhar. As estruturas de Gaia evocam o ritmo do rio e o peso da corrente, revelando a inteligência dos materiais e a força dos gestos que moldam a matéria. Cada escultura nasce da atenção e do tempo, da convivência com a madeira e da observação do trabalho manual como forma de pensamento.
Para o artista, a ferramenta não é instrumento, mas extensão do corpo. Em seu fazer, a precisão técnica se converte em escuta: o nó da linha, o peso do chumbo, o som da madeira são registros de uma relação ética entre o humano e o ambiente. “No bater da minha estaca, eu fortaleço minha estrutura”, diz Gaia — frase que condensa sua reverência ao fazer manual como modo de aprender com a terra e com a água.
Ao evocar o universo das armadilhas e engenhos, Gaia reflete sobre como o conhecimento é produzido e transmitido — e sobre quais corpos são autorizados a produzi-lo. Suas esculturas não reconstituem tradições, mas reativam epistemologias ribeirinhas, modos de saber que pensam com as mãos, com o som e com o fluxo. “Labirintos Molhados” é, assim, uma celebração das técnicas ancestrais e da sabedoria das águas: uma pedagogia do fazer que nos ensina a conduzir-nos pelo que flui.
