“Toda exposição que fiz é um conteúdo no contexto”: Pascale Marthine Tayou comenta a sua primeira grande exposição no Brasil

Em entrevista ao AQA, artista camaronês discute a sua nova individual na Pinacoteca de São Paulo e os atuais desafios políticos da arte

 

Entre bandeiras e esculturas de cristal, o camarônes Pascale Marthine Tayou abre no sábado, 7 de março, a sua primeira individual em uma instituição brasileira. Com passagem por exposições como a Documenta de Kassel, a Bienal de Veneza e a Bienal de São Paulo, a Pinacoteca do Estado recebe agora um conjunto de trabalhos que ocupará as sete salas do edifício Pina Luz.

Em entrevista à AQA, Tayou explica que suas exposições partem da tentativa de estabelecer uma harmonia entre conteúdo e contexto, articulando a narrativa conceitual das obras com o espaço em que são apresentadas. O título “Nocaute!”, segundo ele, funciona como metáfora para um estado de confusão em que vivemos, implicado pelas nossas próprias decisões políticas, econômicas e ambientais. Ao reorganizar materiais cotidianos e elementos encontrados em diferentes contextos, o artista constrói obras que transitam entre o poético e o político, convidando o público a refletir sobre identidade, tradição e as complexas consequências das ações humanas no mundo contemporâneo.

 

Arte Que Acontece: Gostaria primeiro que você falasse sobre o modo como a exposição insere as obras em relação ao espaço arquitetônico, bem como que você contasse um pouco sobre o título “Nocaute!” e a maneira como ele lida com questões históricas por meio da relação entre as diferentes dinâmicas espaciais colocadas pelos trabalhos.

 

Pascale Marthine Tayou: Acho que a história de uma questão é o mesmo que a história de tentar encontrar uma boa relação entre conteúdo e contexto. Conteúdo significa a narrativa da exposição, que naturalmente é o contexto. É depois que chegamos ao espaço. E o que entendo precisar encontrar diz respeito a certo modo de estabelecer uma boa harmonia entre a minha narrativa e o espaço. Toda exposição que fiz é assim.

O conteúdo aqui gira em torno do que estou chamando de “Nocaute” [Knockout], que trata da nossa relação com as consequências do que fazemos enquanto seres humanos. Estamos sempre produzindo muitas coisas e, às vezes, não sabemos realmente o que aconteceu depois do que fizemos. Agora estou apenas tentando entender e falar sobre isso: eu como alguém que produz e eu como ser humano.

Então, neste espaço, encontrei algumas questões — como as grandes reuniões que fizemos para resolver os nossos problemas. Reuniões políticas, econômicas, ambientais… Todas essas reuniões foram feitas para buscar uma solução na medida em que existia um problema. Então, agora, pergunto a mim mesmo se elas realmente resolveram esses problemas, já que talvez nossas soluções se transformem em outros, e cada vez mais, problemas. A principal questão da exposição é a situação de um nocaute implicado por tanta confusão. Não sei como o público vai se sentir colocado nessa circunstância.

Como eu disse desde o início, toda exposição que fiz é um conteúdo no contexto e a tentativa de encontrar uma boa harmonia. O Brasil, por exemplo, tem o seu próprio modo de vida. Ao mesmo tempo em que tento fazer algo dialogando com o Brasil, os brasileiros também podem acessar o meu mantra. É sempre uma etapa de criatividade, de tensionar o que está dado, de tentar encontrar novas direções e criar novos enquadramentos lutando contra os enquadramentos anteriores.

 

AQA: Você também pensa que não está definindo termos ou trabalhando com conteúdos específicos, certo? Quero dizer, não há conteúdos particulares que as obras devam apresentar; elas precisam antes se situar em uma gama mais ampla de contextos e conteúdos. E esse tipo de materialidade — em vez de uma conceitualidade — das obras desenvolve conflitos através dos materiais que você escolhe e na relação deles com o espaço. Você poderia falar sobre essas relações nos materiais mais importantes que aparecem nas obras da exposição?

 

PMT: Entendo o que você quer dizer, mas a maneira como trabalho é muito simples. Escolho materiais simples como esses porque acho que todo mundo conhece esses materiais. Claro, talvez eu use um cristal soprado, mas, quando você chama isso de “vidro”, fica claro que você sabe o que é vidro. Por isso não acho que tenha a capacidade de explicar tudo. Acho que qualquer pessoa poderia fazer algo e, com a oportunidade que tive, estou apenas mostrando como passo a minha vida cotidiana. Claro que as pessoas podem ser mais racionais, mais críticas e tentar ir além. Mas isso não é meu dever.

O que estou dizendo é que sou apenas Pascale caminhando e recolhendo alguns pedaços do mundo. Tudo o que encontro pelo caminho posso usar para fazer alguma coisa. E, na minha mente, já existe algum tipo de mantra que é difícil de especificar por conta da minha história como ser humano, por conta da minha educação… Tudo o que faço, cada reação que tenho, está relacionado à minha identidade, e às vezes nem eu mesmo sei realmente o que estou fazendo. Geralmente preciso ouvir as pessoas para descobrir o que estou realmente fazendo. E tudo o que faço é como produzir uma pequena parte de uma solução maior.

Realmente não quero estar na posição de dizer “sou um artista e estou fazendo isso, estou fazendo aquilo”. Sou apenas um ser humano fazendo coisas com as emoções que sinto e usando ferramentas que encontrei ao longo da minha vida. Estamos conversando agora, por exemplo, e talvez no meu próximo trabalho eu use parte da nossa conversa. É sempre uma tentativa de fazer algo simples e lúdico, mas sério ao mesmo tempo, claro. Porque os seres humanos são a minha verdade. Uso esses materiais porque eles fazem parte da minha vida — no contexto e no espaço.

As pessoas me convidam, como alguém que vem de outro lugar e está aqui no Brasil, talvez porque querem conhecer a minha verdade. Você precisa fazer essa pergunta ao curador: por que você convidou Pascale para estar aqui? Eu não me convidei. Acho que as pessoas me convidam porque talvez eu esteja apenas tentando dar a verdade que tenho. Não sei como explicar, eu apenas faço. Eu simplesmente misturo coisas e esse é o meu modo de fazer. Não é racional, mas muito espontâneo.

 

AQA: Mas, ainda nesse modo espontâneo, há materiais que você obteve aqui e que estabelecem uma relação mais profunda com o Brasil, não?

 

PMT: As obras com vasos, por exemplo, que estou chamando de “Column Pascale”, eu as fiz aqui [no Brasil] e todos os vasos são daqui. Então, não é um vaso do lugar onde nasci. Mas eu explico a coluna de uma maneira e você pode explicá-la de outra. Há colunas em todos os lugares, mas acho que a coluna tem algo a ver com rigidez, produtividade e tradição; porém, quando uso colunas, é de certo modo para quebrar, misturar ou ir além da nossa tradição.

Você nunca imaginaria que pode usar um vaso para fazer uma coluna. Então, esteticamente, atravessei essa barreira — e é o mesmo com as árvores que saem da parede, com as esculturas de cristal. Fiz essas esculturas de cristal porque queria encontrar transparência no conceito mágico, relacionado à interpretação de formas tribais. E pensei que talvez, usando cristal, por ser transparente, pudesse ser uma maneira de chegar mais perto da verdade. Mas, à medida que eu usava o cristal, tudo ficava mais confuso, porque ser transparente não significa necessariamente ser visível.

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