
Um dos marcos da pintura renascentista veneziana entrou em um processo de restauro sem precedentes e, desta vez, diante do público. O monumental Pala di San Giobbe, de Giovanni Bellini, está sendo restaurado na Gallerie dell’Accademia em um projeto que transforma conservação em experiência expositiva.
Datada de cerca de 1487, a obra considerada um ponto de virada na pintura veneziana por sua composição unificada, enfrenta problemas estruturais graves. O suporte em madeira apresenta fissuras causadas por variações de temperatura, enquanto os pigmentos sofreram alterações ao longo dos séculos.
Diante da fragilidade do conjunto, especialistas decidiram não remover a pintura. Em vez disso, o restauro acontece no próprio espaço expositivo, atrás de uma estrutura de vidro que permite ao público acompanhar cada etapa do processo.
Com duração estimada de dois anos e orçamento de cerca de €500 mil, a intervenção inclui estabilização da base de madeira, análises com tecnologias como infravermelho e fluorescência ultravioleta, limpeza da superfície e reintegração cromática com materiais reversíveis.
Além de ser o restauro mais abrangente já realizado na obra em mais de cinco séculos, o projeto reflete uma mudança mais ampla no campo museológico: tornar visível aquilo que tradicionalmente acontecia nos bastidores.
Ao expor o processo, e não apenas o resultado, o museu reposiciona a conservação como parte ativa da experiência do público, aproximando ciência, história da arte e mediação cultural em tempo real.