
Nascida em Tsu, na província de Mie, em 1951, e radicada na Europa desde os anos 1970, Leiko Ikemura construiu um percurso que une deslocamento, delicadeza e inquietação em igual medida. A formação entre Osaka e Sevilha no início dos anos 1970, a mudança para Zurique em 1979 e a instalação definitiva entre Colônia e Berlim nos anos seguintes desenham uma biografia que favorece a metamorfose constante. Em 1991, ela assumiu a cadeira de pintura na Universität der Künste de Berlim e, desde 2014, também leciona na Joshibi University of Art and Design próxima a Tóquio. A docência caminha junto do ateliê e acompanha a artista enquanto a produção ganha escala e refina um léxico próprio.
“Quero evocar emoção sem sentimentalismo, oferecendo um espaço de reflexão tanto sobre a vida contemporânea quanto sobre experiências antigas e mais primordiais.” – Leiko Ikemura, em entrevista a Whitewall Magazine (2024)
O primeiro contato com suas obras costuma vir por figuras femininas que aparecem e se desfazem como névoa. Em telas de grandes dimensões, o olho percebe rostos e corpos que emergem de campos de cor rarefeitos. Há um regime de aparição e recuo que evita a caricatura do feminino. No final dos anos 1980, suas pinturas figurativas já situavam mulheres solitárias em atmosferas densas, marcadas por tensão psicológica e um sentimento constante de vigilância. A figura humana aparece ali à beira do desaparecimento, como se o mundo exterior exercesse um peso silencioso sobre aqueles corpos. Pouco depois surge “Girls”, iniciada no mesmo período, quando a artista desfaz a doçura programada que costuma cercar a imagem da menina. A referência ao kawaii – estética que associa fragilidade, inocência e docilidade ao corpo jovem – se desestabiliza ali. Essa operação também desmonta o olhar masculino que historicamente capturou o feminino nesse lugar estreito de graça e vulnerabilidade. As personagens não pedem complacência. Olhos e bocas às vezes se apagam. A própria artista já se referiu a essas zonas como feridas. A palavra indica passagem entre dentro e fora. O resultado mantém o momento sensível entre infância e idade adulta em suspensão.

O repertório se expande quando a paisagem passa a acolher personagens que lembram plantas, animais e ancestrais ao mesmo tempo. A artista fala de seres verdes em mutação. Eles não funcionam como alegoria distante. São sinais de um mundo compartilhado por muitas formas de vida. A pintura segue essa intuição. Em têmpera e óleo sobre juta ou linho, as cores vibram e se instalam como atmosfera. Nos desenhos e aquarelas, a linha se aproxima do traço caligráfico e as manchas se concentram em áreas onde a presença parece mais densa. A tradição japonesa comparece como prática. O que vem da caligrafia, do sumi-ê ou da pintura de paisagem do Leste Asiático aparece como modo de fazer. Nada fica posado como citação.
A partir da segunda metado dos anos 1980, Ikemura voltou-se também à escultura e encontrou ali uma nova gramática. Modelou terracota, bronze, argila. A tridimensionalidade permitiu que as figuras se mantivessem em estado de transformação permanente. Essa mudança de meio não substituiu a pintura. As duas frentes se alimentam. A materialidade da escultura retorna às telas e as imagens da pintura se corporificam no espaço.

O motivo do usagi ganhou centralidade depois de 2011. O terremoto de Tōhoku e o acidente nuclear de Fukushima desencadearam a presença do híbrido com orelhas de coelho e rosto humano. A figura nasce de um choque real com relatos de deformações em animais e se estabelece como mensageira. A referência aos kami aparece de modo discreto. O que importa é o que a forma carrega. Sofrimento compartilhado. Capacidade de recomeço. Circularidade entre criação e destruição. Em vidro, terracota vidrada, bronze ou nas telas, o usagi concentra esse circuito de afetos e pensamentos que a artista vem elaborando há décadas. A partir dele surgiram instalações como “Usagi in Wonderland”, quando o corpo híbrido passa a ocupar o espaço expositivo como uma presença envolvente.
A presença na 36ª Bienal de São Paulo posiciona essa trajetória diante de um público numeroso e diverso, com pinturas recentes em que seres verdes atravessam diferentes etapas de mutação e desenhos em que traço e cor funcionam como registros de um gesto suscetível a desaparecer. Há uma sensação de iminência que percorre essas figuras – como se algo pudesse irromper a qualquer momento. A convivência entre mundos e espécies se dá sem hierarquia, e a interdependência se torna visível nos contornos instáveis dessas presenças. No contexto paulistano, onde a história da imigração japonesa molda vínculos profundos, a recepção ganha camadas adicionais. A obra não busca aproximar culturas por exotismo. Ela trabalha um campo comum feito de respiração, silêncio, aparição e desvio.

A passagem entre meios ajuda a entender a amplitude desse trabalho. Ikemura pinta, desenha, modela, queima, funde, sopra. As peças de vidro inauguradas nos anos 2000 tornaram a luz uma parceira inseparável. As esculturas reagem ao ambiente e mudam com o deslocamento do visitante. Em todas as frentes, a artista aceita que cada material imponha ritmo, resistência e cuidado próprios. Essa decisão sustenta um universo coerente e aberto ao mesmo tempo.
Há uma dimensão pouco comentada que hoje recebe atenção renovada. Ikemura escreve. Em anos recentes ela reuniu cerca de 130 textos entre poemas curtos, haicais livres e ensaios breves que percorrem décadas de cadernos. A publicação inclui também reproduções de obras e imagens de exposições. O conjunto não pretende explicar a produção visual. Ele expõe a cadência interna desse pensamento. As frases são diretas. As imagens aparecem como lembranças que voltam e se transformam. O livro funciona como um companheiro de leitura demorada. Quem retorna encontra outras entradas.
Ao longo do tempo, premiações de instâncias distintas reconheceram essa consistência. O Ministério da Educação, Cultura, Esporte, Ciência e Tecnologia do Japão a premiou em 2019. O Cologne Fine Art Prize veio em 2014 e o August Macke Prize em 2009. A Associação de Críticos Alemães em 2001.

E a circulação internacional confirma esse alcance. Nas últimas décadas, a artista realizou individuais no Georg Kolbe Museum e na Feuerle Collection em Berlim, no Museum de Fundatie nos Países Baixos, no Museo de Arte de Zapopan em Guadalajara, no Sainsbury Centre em Norwich, no Kunstmuseum Basel e no The National Art Center em Tóquio, entre outras. Em 2019, a dupla retrospectiva em Basel e Tóquio marcou um momento de síntese e projeção global. Em Viena, a mostra “Motherscapes” no ALBERTINA entre novembro de 2025 e abril de 2026 apresenta um recorte que enfatiza a proximidade entre corpo e paisagem e retoma o interesse pela formação de identidades em contato. Obras suas integram acervos como Centre Pompidou em Paris, Albertina em Viena, Kunstmuseum Bonn, Kunstmuseum Basel e Bern, Museum of Contemporary Art Tokyo, National Museum of Art Osaka e The National Museum of Modern Art em Tóquio, além de museus regionais no Japão e instituições europeias.

Para quem verá de perto, vale um roteiro simples. Chegue sem pressa. Dê alguns passos para trás nas telas grandes e depois se aproxime até quase encostar os olhos na superfície. Observe quando o rosto se forma e quando se desfaz. Nos desenhos, siga a linha com a vista até onde ela se dilui. Nas esculturas, circule devagar. O vidro reage à luz do espaço e muda a cada movimento. Se o usagi estiver presente, retenha a primeira leitura e permita que ela se modifique. Essa abertura faz parte do trabalho.
Ikemura nunca tratou a infância como refúgio nem a paisagem como cenário. Também não isolou o feminino em um lugar simbólico previsível. O que se vê é um mundo que insiste em nascer mais de uma vez. Em São Paulo, essa insistência encontra eco. O visitante sai com a sensação de que algo permaneceu em estado de formação. É um efeito raro. E permanece.