
Leiko Ikemura, 2019, Cortesia Kunstmuseum Basel © ProLitteris. Foto: María Rúnarsdóttir
Nascida em Tsu, na província de Mie, em 1951, e radicada na Europa desde os anos 1970, Leiko Ikemura construiu um percurso que une deslocamento, delicadeza e inquietação em igual medida. A formação entre Osaka e Sevilha no início dos anos 1970, a mudança para Zurique em 1979 e a instalação definitiva entre Colônia e Berlim nos anos seguintes desenham uma biografia que favorece a metamorfose constante. Em 1991, ela assumiu a cadeira de pintura na Universität der Künste de Berlim e, desde 2014, também leciona na Joshibi University of Art and Design próxima a Tóquio. A docência caminha junto do ateliê e acompanha a artista enquanto a produção ganha escala e refina um léxico próprio.
“Quero evocar emoção sem sentimentalismo, oferecendo um espaço de reflexão tanto sobre a vida contemporânea quanto sobre experiências antigas e mais primordiais.” – Leiko Ikemura, em entrevista a Whitewall Magazine (2024)
O primeiro contato com suas obras costuma vir por figuras femininas que aparecem e se desfazem como névoa. Em telas de grandes dimensões, o olho percebe rostos e corpos que emergem de campos de cor rarefeitos. Há um regime de aparição e recuo que evita a caricatura do feminino. No final dos anos 1980, suas pinturas figurativas já situavam mulheres solitárias em atmosferas densas, marcadas por tensão psicológica e um sentimento constante de vigilância. A figura humana aparece ali à beira do desaparecimento, como se o mundo exterior exercesse um peso silencioso sobre aqueles corpos. Pouco depois surge “Girls”, iniciada no mesmo período, quando a artista desfaz a doçura programada que costuma cercar a imagem da menina. A referência ao kawaii – estética que associa fragilidade, inocência e docilidade ao corpo jovem – se desestabiliza ali. Essa operação também desmonta o olhar masculino que historicamente capturou o feminino nesse lugar estreito de graça e vulnerabilidade. As personagens não pedem complacência. Olhos e bocas às vezes se apagam. A própria artista já se referiu a essas zonas como feridas. A palavra indica passagem entre dentro e fora. O resultado mantém o momento sensível entre infância e idade adulta em suspensão.

Leiko Ikemura, “Girl with Red Cat”, 2010-2011
O repertório se expande quando a paisagem passa a acolher personagens que lembram plantas, animais e ancestrais ao mesmo tempo. A artista fala de seres verdes em mutação. Eles não funcionam como alegoria distante. São sinais de um mundo compartilhado por muitas formas de vida. A pintura segue essa intuição. Em têmpera e óleo sobre juta ou linho, as cores vibram e se instalam como atmosfera. Nos desenhos e aquarelas, a linha se aproxima do traço caligráfico e as manchas se concentram em áreas onde a presença parece mais densa. A tradição japonesa comparece como prática. O que vem da caligrafia, do sumi-ê ou da pintura de paisagem do Leste Asiático aparece como modo de fazer. Nada fica posado como citação.
A partir da segunda metado dos anos 1980, Ikemura voltou-se também à escultura e encontrou ali uma nova gramática. Modelou terracota, bronze, argila. A tridimensionalidade permitiu que as figuras se mantivessem em estado de transformação permanente. Essa mudança de meio não substituiu a pintura. As duas frentes se alimentam. A materialidade da escultura retorna às telas e as imagens da pintura se corporificam no espaço.

Vista da obra “Usagi” de Leiko Ikemura. VG Bild-Kunst, Bonn 2023 / © Leiko Ikemura / Georg Kolbe Museum, Berlim / Foto: Jörg von Bruchhausen
O motivo do usagi ganhou centralidade depois de 2011. O terremoto de Tōhoku e o acidente nuclear de Fukushima desencadearam a presença do híbrido com orelhas de coelho e rosto humano. A figura nasce de um choque real com relatos de deformações em animais e se estabelece como mensageira. A referência aos kami aparece de modo discreto. O que importa é o que a forma carrega. Sofrimento compartilhado. Capacidade de recomeço. Circularidade entre criação e destruição. Em vidro, terracota vidrada, bronze ou nas telas, o usagi concentra esse circuito de afetos e pensamentos que a artista vem elaborando há décadas. A partir dele surgiram instalações como “Usagi in Wonderland”, quando o corpo híbrido passa a ocupar o espaço expositivo como uma presença envolvente.
A presença na 36ª Bienal de São Paulo posiciona essa trajetória diante de um público numeroso e diverso, com pinturas recentes em que seres verdes atravessam diferentes etapas de mutação e desenhos em que traço e cor funcionam como registros de um gesto suscetível a desaparecer. Há uma sensação de iminência que percorre essas figuras – como se algo pudesse irromper a qualquer momento. A convivência entre mundos e espécies se dá sem hierarquia, e a interdependência se torna visível nos contornos instáveis dessas presenças. No contexto paulistano, onde a história da imigração japonesa molda vínculos profundos, a recepção ganha camadas adicionais. A obra não busca aproximar culturas por exotismo. Ela trabalha um campo comum feito de respiração, silêncio, aparição e desvio.

Registro de obra de Leiko Ikemura na 36ª Bienal de São Paulo. 01/09/2025 © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
A passagem entre meios ajuda a entender a amplitude desse trabalho. Ikemura pinta, desenha, modela, queima, funde, sopra. As peças de vidro inauguradas nos anos 2000 tornaram a luz uma parceira inseparável. As esculturas reagem ao ambiente e mudam com o deslocamento do visitante. Em todas as frentes, a artista aceita que cada material imponha ritmo, resistência e cuidado próprios. Essa decisão sustenta um universo coerente e aberto ao mesmo tempo.
Há uma dimensão pouco comentada que hoje recebe atenção renovada. Ikemura escreve. Em anos recentes ela reuniu cerca de 130 textos entre poemas curtos, haicais livres e ensaios breves que percorrem décadas de cadernos. A publicação inclui também reproduções de obras e imagens de exposições. O conjunto não pretende explicar a produção visual. Ele expõe a cadência interna desse pensamento. As frases são diretas. As imagens aparecem como lembranças que voltam e se transformam. O livro funciona como um companheiro de leitura demorada. Quem retorna encontra outras entradas.
Ao longo do tempo, premiações de instâncias distintas reconheceram essa consistência. O Ministério da Educação, Cultura, Esporte, Ciência e Tecnologia do Japão a premiou em 2019. O Cologne Fine Art Prize veio em 2014 e o August Macke Prize em 2009. A Associação de Críticos Alemães em 2001.

Leiko Ikemura, “Pietà in Cherry Red”, 2023/2024. Cortesia Lisson Gallery
E a circulação internacional confirma esse alcance. Nas últimas décadas, a artista realizou individuais no Georg Kolbe Museum e na Feuerle Collection em Berlim, no Museum de Fundatie nos Países Baixos, no Museo de Arte de Zapopan em Guadalajara, no Sainsbury Centre em Norwich, no Kunstmuseum Basel e no The National Art Center em Tóquio, entre outras. Em 2019, a dupla retrospectiva em Basel e Tóquio marcou um momento de síntese e projeção global. Em Viena, a mostra “Motherscapes” no ALBERTINA entre novembro de 2025 e abril de 2026 apresenta um recorte que enfatiza a proximidade entre corpo e paisagem e retoma o interesse pela formação de identidades em contato. Obras suas integram acervos como Centre Pompidou em Paris, Albertina em Viena, Kunstmuseum Bonn, Kunstmuseum Basel e Bern, Museum of Contemporary Art Tokyo, National Museum of Art Osaka e The National Museum of Modern Art em Tóquio, além de museus regionais no Japão e instituições europeias.

Leiko Ikemura, “Nightscape II”, 2024. Cortesia Galerie Peter Kilchmann
Para quem verá de perto, vale um roteiro simples. Chegue sem pressa. Dê alguns passos para trás nas telas grandes e depois se aproxime até quase encostar os olhos na superfície. Observe quando o rosto se forma e quando se desfaz. Nos desenhos, siga a linha com a vista até onde ela se dilui. Nas esculturas, circule devagar. O vidro reage à luz do espaço e muda a cada movimento. Se o usagi estiver presente, retenha a primeira leitura e permita que ela se modifique. Essa abertura faz parte do trabalho.
Ikemura nunca tratou a infância como refúgio nem a paisagem como cenário. Também não isolou o feminino em um lugar simbólico previsível. O que se vê é um mundo que insiste em nascer mais de uma vez. Em São Paulo, essa insistência encontra eco. O visitante sai com a sensação de que algo permaneceu em estado de formação. É um efeito raro. E permanece.




