Uma palavra no canto do quadro. Um sinal gráfico que pode ser lido tanto como um símbolo matemático, quanto como uma mira. Em algumas pinturas, quase não há imagem, apenas superfícies austeras, campos vazios e inscrições que parecem fragmentos de pensamento. Produzidas no final dos anos 1960, essas obras marcam um momento em que o artista Antonio Dias transforma a pintura em um campo de investigação sobre imagem, linguagem e violência histórica. Esse período é o foco da exposição “ANTONIO DIAS / IMAGE + MIRAGE”, apresentada na Gomide&Co.

Do pop tropical ao silêncio da imagem
Nascido em 1944, em Campina Grande (PB), Antonio Dias se consolidou ainda muito jovem como uma das figuras mais inquietas da vanguarda brasileira. Associado inicialmente ao ambiente da chamada Nova Figuração, o artista desenvolveu trabalhos que combinavam referências da cultura de massa, da política e da linguagem gráfica. No final da década de 1960, o endurecimento da ditadura militar no Brasil levou diversos artistas e intelectuais ao exílio, Antonio foi um deles, que deixou o país em direção a Europa. Após participar do clima de efervescência política que marcou o Maio de 1968 na França, Antonio Dias acabou perdendo o visto francês e precisou cruzar fronteiras mais uma vez. Foi nesse momento que se estabeleceu em Milão, cidade onde desenvolveu parte importante de sua obra.
Com texto crítico e curadoria de Gustavo Motta, a exposição parte de um conjunto de pinturas preservadas pelo galerista italiano Gió Marconi, ligado à histórica galeria Studio Marconi, que representou o artista durante sua vivência na Europa. O recorte evidencia um momento em que Antonio Dias desloca a pintura do campo da representação para o da reflexão sobre a própria imagem e seu contexto histórico.
O título da mostra deriva de uma das obras centrais do conjunto, “Image/Mirage”. Como ocorre em diversos trabalhos desse período, o próprio título aparece inscrito dentro da pintura, integrando a composição visual. No centro da obra, um símbolo gráfico semelhante a um sinal de soma pode também ser lido como um alvo ou uma mira, uma ambiguidade que, segundo o curador, abre a leitura da obra para uma dimensão associada à violência e ao conflito.

De acordo com Gustavo Motta, a palavra mirage não funciona apenas como metáfora de ilusão óptica. Ela remete também a um elemento histórico bastante concreto: os caças supersônicos Mirage, desenvolvidos pela indústria aeronáutica francesa na década de 1960 e amplamente utilizados no contexto da Guerra Fria. Em meio à corrida tecnológica e militar que marcou o período, essas aeronaves tornaram-se símbolos do poder bélico e da disputa geopolítica entre os blocos liderados pelos Estados Unidos e pela União Soviética – um momento histórico em que, como observa o curador, o campo do visual e o campo bélico começam a se encontrar.
A mudança na linguagem de Antonio Dias se torna ainda mais evidente quando comparada à produção que ele realizava no Brasil poucos anos antes. Nos trópicos, suas obras incorporavam fragmentos visuais da cultura de massa como quadrinhos, publicidade e elementos gráficos populares, em um processo que dialogava com a pop art e que Hélio Oiticica descreveu como uma forma de “superantropofagia”. Segundo Gustavo Motta, nos trabalhos produzidos após o exílio essa iconografia praticamente desaparece. No lugar das imagens figurativas surgem superfícies marcadas pelo vazio e pela redução formal, criando uma ampliação do campo visual que, paradoxalmente, evidencia a ausência da própria imagem.
Mesmo realizadas na Europa, essas obras permanecem profundamente atravessadas pela experiência histórica brasileira. Para o curador, a condição de deslocamento entre o Brasil e o cenário europeu, atravessa a produção do artista nesse período. De um lado, o contexto político brasileiro continua a reverberar nas obras; de outro, o artista passa a compreender os conflitos e transformações globais a partir de uma posição periférica. Segundo Gustavo, esse deslocamento permite que a experiência das periferias do capitalismo funcione como uma espécie de lente crítica para interpretar a dinâmica dos centros.
Em vez de simplesmente absorver o debate artístico europeu, Antonio Dias o confronta com referências que remetem às desigualdades e tensões políticas do lado sul do globo. Essa dimensão aparece também no vocabulário que surge dentro das pinturas. Em “Free Continent”, por exemplo, a palavra “hungry” aparece inscrita no interior de um diagrama, evocando a experiência da fome como marca histórica das regiões periféricas.

Outros trabalhos incorporam referências a acontecimentos que marcaram o final dos anos 1960. Entre eles estão a Guerra do Vietnã, a Guerra dos Seis Dias e as diversas repressões policiais que se seguiram às revoltas de 1968 em diferentes partes do mundo. Em “Terror Square”, por exemplo, o título funciona como um jogo de palavras entre “quadrado do terror” e “praça do terror”, evocando a expressão que circulou na imprensa internacional após o massacre de estudantes em 1968 na Praça de Tlatelolco, no México.
Arquivo, expografia e leitura da obra
Além das pinturas, a exposição inclui documentos e materiais do arquivo de Antonio Dias, hoje preservado no Instituto de Arte Contemporânea (IAC). Anotações pessoais, textos críticos da época, esboços e materiais gráficos aparecem em diálogo com as obras, ampliando as possibilidades de leitura do conjunto. De acordo com Gustavo, a intenção não é oferecer explicações definitivas para as pinturas, mas criar um campo de relações que estimule a interpretação do visitante. A expografia, desenvolvida em colaboração com o artista Deyson Gilbert, procura justamente enfatizar esse caráter enigmático do trabalho de Dias. Em vez de ocultar sentidos, o enigma funciona como um convite à decifração, um processo que depende da participação ativa de quem percorre a exposição.
O projeto curatorial se desdobra ainda em uma publicação que acompanha a exposição. O livro “ANTONIO DIAS / IMAGE + MIRAGE” será lançado no Instituto de Arte Contemporânea, reunindo textos críticos e materiais de arquivo relacionados ao período abordado pela mostra. O evento contará com duas rodas de conversa dedicadas à obra do artista, com participação de pesquisadores e críticos como Sérgio Martins, Lara Rivetti, Paulo Sergio Duarte e Luiz Renato Martins. O encontro marca também a última semana da exposição, que permanece aberta ao público até 21 de março.