Uma Guerrilla Girl tira a máscara

A artista do movimento Pattern and Decoration confirma ter atuado sob o codinome "Liubov Popova" no coletivo feminista que, há mais de quatro décadas, esconde a identidade de suas integrantes atrás de máscaras de gorila

Há mais de quarenta anos, as Guerrilla Girls fazem da própria invisibilidade uma estratégia de ataque. Desde os anos 1980, o coletivo expõe a desigualdade de gênero em museus e galerias usando máscaras de gorila e codinomes emprestados de artistas mulheres do passado, uma forma de garantir que a discussão recaia sobre as estatísticas que denunciam e não sobre as pessoas por trás delas. Poucas integrantes tiveram a identidade revelada ao longo desse tempo, e quase sempre por circunstâncias que fugiram ao controle do grupo.

O episódio mais conhecido aconteceu em 2003, quando Jerilea Zempel e Erika Rothenberg, conhecidas dentro do coletivo como “Frida Kahlo” e “Käthe Kollwitz”, precisaram se identificar publicamente para mover um processo judicial contra uma dissidência interna das Guerrilla Girls. O caso, coberto à época pelo jornalista Jeffrey Toobin para a New Yorker, expôs bastidores inusitados da vida em anonimato coletivo, como o fato de mais de uma integrante ter adotado o codinome “Gertrude Stein” ao longo dos anos, e ao menos uma delas ter simplesmente esquecido qual pseudônimo usava.

Artista Joyce Kozloff.

Agora é a artista Joyce Kozloff, nome central do movimento Pattern and Decoration dos anos 1970, quem decide revelar por conta própria sua identificação com o grupo. Em entrevista à revista acadêmica Art Journal Open, Kozloff confirmou ter atuado sob o codinome “Liubov Popova”, em homenagem à pintora construtivista russa. Questionada sobre a lógica do anonimato que sustentou o grupo por décadas, ela resumiu a intenção original: preferia que a atenção não recaísse sobre as integrantes como indivíduos, mas permanecesse fixa nas próprias pautas que o coletivo sempre defendeu.

A revelação de Kozloff se soma a uma lista ainda curta de identidades confirmadas dentro do grupo, mantendo intacto o mistério em torno da maioria de suas integrantes, e reforça um paradoxo que atravessa toda a história das Guerrilla Girls: quanto mais tempo passa, mais a própria persistência do anonimato vira parte do valor simbólico do projeto, uma recusa deliberada ao culto de personalidade que domina boa parte do mundo da arte contemporânea.