Mural apagado por Pinochet reaparece no Chile após 50 anos

Obra de Julio Escámez, coberta por 12 camadas de tinta desde a ditadura, é recuperada na prefeitura de Chillán

Foto: Conselho de Monumentos Nacionais do Chile

Um mural histórico do artista chileno Julio Escámez, apagado pelo regime militar de Augusto Pinochet em 1973, está sendo recuperado na prefeitura de Chillán, no Chile. Uma equipe da Unidade de Patrimônio do município (UPA) trabalha desde 2021 na terceira fase de um projeto de restauro que remove, milímetro a milímetro, 12 camadas de tinta branca aplicadas sobre a composição original ao longo das décadas. A conclusão está prevista para dezembro de 2027.

Elvira Fuchslocher, responsável pela equipe de restauro, descreveu o trabalho como um caso particular, já que são raros os murais dessa escala que permanecem cobertos por tantas camadas de tinta por tanto tempo. A remoção é feita em grades, com raspagem manual diária.

A obra foi encomendada em 1969 pelo prefeito Eduardo Contreras Mella, às vésperas da eleição de Salvador Allende à presidência do Chile. Escámez levou dois anos para concluir o mural, batizado “Beginning and End” (“Início e Fim”), que ocupava cerca de 42 metros quadrados de uma parede do Salão de Honra da prefeitura e retratava o triunfo do povo sobre a opressão, em uma composição de figuras expressivas e cores vibrantes. A obra foi revelada em 1972 pelo sucessor de Mella, Ricardo Lagos Reyes, e visitada meses depois pelo próprio Allende. O poeta Pablo Neruda chegou a elogiar publicamente a obra pela profundidade e verdade de sua composição.

Após o golpe militar que derrubou Allende, Pinochet, associando o mural a um projeto socialista democrático, ordenou sua destruição. Escámez foi exilado na Costa Rica. Segundo Catalina Sverlij, sua sobrinha-neta e responsável pela Fundação Escámez, o que aconteceu com o mural resumia a dor que o artista sentia em relação ao Chile.

O atual prefeito de Chillán, Camilo Benavente, liderou o esforço para recuperar a obra, mesmo diante de relatos contraditórios sobre sua destruição ao longo dos anos — havia versões de que o mural teria sido demolido com baionetas, coberto de piche ou, segundo o próprio artista, retirado a talhadeira e martelo. Em 2021, uma primeira análise da parede pela Universidade das Artes encontrou o primeiro traço da obra: um fragmento da cor laranja característica das chamas retratadas no mural. A partir daí, a equipe percebeu que a altura original da obra havia sido reduzida para dar lugar a um segundo andar, com uma janela aberta diretamente sobre a pintura.

Descobriu-se também que o mural era maior do que se imaginava. A prefeitura suspeita hoje que o título “Beginning and End” possa se referir a duas obras distintas: uma retratando a luta de classes, outra mostrando um grupo de mulheres observando através de um telescópio, em uma cena de calma e contemplação. Ambos os murais foram declarados Monumentos Nacionais em 2024.