Morre Carlo Ginzburg, historiador que revolucionou a forma de narrar o passado

Pioneiro da micro-história, intelectual italiano tinha 87 anos e influenciou gerações de pesquisadores ao dar protagonismo às vozes marginalizadas pela história oficial

Foto: AP Photo/Andrew Medichini, File

Morreu aos 87 anos o historiador italiano Carlo Ginzburg, uma das figuras mais influentes da historiografia contemporânea. Reconhecido por transformar a maneira como se investiga e se escreve a história, Ginzburg se tornou referência internacional ao defender que pequenos acontecimentos e personagens anônimos podem revelar estruturas sociais e culturais muito mais amplas.  

Nascido em Turim, em 1939, Ginzburg era filho da escritora Natalia Ginzburg e do intelectual antifascista Leone Ginzburg, morto após ser preso e torturado pelo regime nazifascista durante a Segunda Guerra Mundial. A experiência familiar marcou profundamente sua trajetória intelectual e seu interesse pelas relações entre poder, perseguição e memória.  

Seu nome ficou associado ao desenvolvimento da chamada micro-história, corrente historiográfica que propõe analisar casos específicos para compreender fenômenos históricos mais amplos. Sua obra mais conhecida, O Queijo e os Vermes, publicada em 1976, tornou-se um clássico ao reconstruir o universo mental de Menocchio, um moleiro do século XVI processado pela Inquisição. A partir de documentos aparentemente marginais, Ginzburg mostrou como indivíduos comuns também produzem conhecimento, interpretações do mundo e formas de resistência.  

Ao longo de sua carreira, dedicou-se ainda ao estudo da bruxaria, dos cultos populares, da cultura camponesa e dos mecanismos de perseguição religiosa na Europa moderna. Seu conceito de “paradigma indiciário” — frequentemente comparado ao trabalho de um detetive — defendia que pistas, vestígios e detalhes aparentemente insignificantes podem revelar verdades históricas profundas.  

Professor em instituições como a Universidade de Bolonha, a Scuola Normale Superiore de Pisa, UCLA, Harvard, Yale e Princeton, Ginzburg recebeu importantes distinções acadêmicas, incluindo o Prêmio Balzan, e consolidou-se como uma das vozes mais respeitadas da história intelectual europeia.  

Sua morte encerra uma trajetória que redefiniu o campo da historiografia, mas seu legado permanece vivo em uma geração de pesquisadores que aprendeu com ele a olhar para as margens da história em busca de novas formas de compreender o passado.