Após reparos, inaugura hoje grande instalação na Pont Neuf

"La Caverne du Pont Neuf", de JR, abriu ao público nesta segunda, 15 de junho, após um acidente com ventos e granizo que rasgou partes da estrutura durante a montagem.

No dia 2 de junho, rajadas de vento e granizo rasgaram partes da estrutura inflável de “La Caverne du Pont Neuf” enquanto a montagem ainda estava em curso. O artista JR, junto à sua equipe, fizeram os reparos em público — e, em vez de disfarçar as costuras, as acentuaram em preto. O acidente virou parte da obra e esse era o aviso de que a instalação não pretendia parecer perfeita.

A caverna abriu ao público no dia 15 de junho, com duas semanas de atraso, e ficará sobre a Pont Neuf até 28 de junho. Com entrada gratuita, o acesso funcionará vinte e quatro horas por dia e o ponto de entrada fica na Place du Pont Neuf Christo et Jeanne-Claude, nome que já antecipa a homenagem carregada pelo trabalho. Em 1985, Christo e Jeanne-Claude embrulharam a mesma ponte com 40 mil metros quadrados de polipropileno cor de areia, que JR, por sua vez, vai escavar. Sua intervenção cobre a Pont Neuf com uma pele rochosa, cavernosa, que transforma a travessia mais conhecida de Paris numa passagem que evoca as pedreiras de calcário lutetiano de onde saiu a pedra que construiu a própria ponte — concluída em 1607, a primeira de Paris inteiramente edificada nesse material.

A estrutura tem 120 metros de comprimento por 20 de largura, com pontos altos que variam entre 12 e 18 metros. O sistema técnico combina 80 arcos de lona sustentados por ar levemente pressurizado, um túnel interior impresso mantido por sucção e uma camada externa que desce até a base dos pilares. No total: 18.900 metros quadrados de tecido e 20 mil metros cúbicos de ar. O lastro se limita a 130 toneladas distribuídas pela ponte — restrição que exigiu que todo o peso da instalação viesse de dentro para fora, do ar e da pressão, não de ancoragens externas.

 

 

Mas o que o visitante encontra dentro é outra coisa. Thomas Bangalter, ex-Daft Punk, compôs uma atmosfera eletracústica que funciona como textura mineral ao redor do corpo — não uma trilha sonora, mas um campo de ressonância que molda o percurso sem se anunciar como música. JR trabalhou ainda com o AR Studio Paris da Snap Inc. numa camada de realidade aumentada chamada “Echoes”, inspirada na cronofotografia de Étienne-Jules Marey: corpos em movimento, animais, luz e som que o visitante pode ativar pelo celular enquanto atravessa a caverna. E, pela primeira vez na trajetória do artista, o perfume entra como material: dois acordes olfativos desenvolvidos com Sarah Bouasse e a casa Odore Scola são difundidos em zonas distintas da instalação, relacionando-se com a geologia, as origens e o ar que circula pela estrutura.

Paralelo à Pont Neuf, a Galeria Perrotin no Marais apresenta até 25 de julho “Les esquisses de La Caverne”, com trabalhos preparatórios em fotografia, desenho, colagem e chapas de zinco amassadas recuperadas de telhados parisienses — extensão da pesquisa material da instalação para o espaço expositivo.

“La Caverne du Pont Neuf” chega quarenta anos depois de Christo, mas fala de outra coisa. O que Christo cobriu, JR escava. O que Christo fechou, JR atravessa. E as costuras pretas que percorrem a superfície da caverna lembram que a obra existe num prazo — e que parte do que ela diz está justamente na sua fragilidade.

 

 

La Caverne du Pont Neuf — JR.

Pont Neuf, Paris.

De 15 a 28 de junho de 2026.

Entrada gratuita, acesso 24 horas.

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