Uma sequência inusitada de resultados em vendas apareceram na nova temporada. Obras que estavam fora do circuito por décadas, algumas por meio século, retornaram ao mercado num momento em que colecionadores de alto patrimônio demonstram apetite crescente por obras de peso histórico. O denominador comum entre os maiores lotes dessa temporada é a proveniência: coleções formadas por figuras que definiram o gosto e o mercado da segunda metade do século XX, e que agora chegam ao circuito pela primeira vez após a morte de seus proprietários.
1 – “Portrait of Elisabeth Lederer”, de Gustav Klimt

O maior resultado recente pertence a Gustav Klimt. O “Portrait of Elizabeth Lederer” (1914–16), retrato em tamanho natural da filha de um dos maiores mecenas do artista em Viena, foi vendido por US$ 236,4 milhões na Sotheby’s em Nova York em novembro de 2025, o valor mais alto já alcançado por uma obra de arte moderna em leilão, e o segundo maior resultado da história dos leilões, atrás apenas do “Salvator Mundi” atribuído a Leonardo da Vinci, vendido por US$ 450 milhões em 2017. A obra superou com folga a estimativa inicial de US$ 150 milhões depois de uma disputa de 20 minutos entre seis licitantes.
Mas a história da obra dá caldo para muito além do mercado. A família Lederer era uma das mais ricas e importantes famílias judaicas de Viena, e manteve uma das maiores coleções de obras de Klimt do mundo. Com a anexação da Áustria pela Alemanha nazista em 1938, a coleção foi saqueada e boa parte destruída num incêndio no Castelo Immendorf em 1945. “Portrait of Elisabeth Lederer” sobreviveu para escapar da perseguição nazista, sendo que a própria Elisabeth retratada afirmou ser filha ilegítima de Klimt, que não era judeu e havia morrido em 1918. Mas com a ajuda de um ex-cunhado que ocupava cargo de alto escalão no regime, ela obteve documentos que a classificavam como “meia-ariana”, o que lhe permitiu permanecer em Viena até sua morte por doença em 1944. A mentira salvou tanto a mulher quanto o quadro.
A obra pertencia à coleção de Leonard Lauder, herdeiro da Estée Lauder e um dos grandes colecionadores americanos do século XX, Lauder a adquiriu na década de 1980 e conviveu com ela por quarenta anos, ela ficava pendurada acima da mesa de jantar de seu apartamento em Nova York. Lauder morreu em junho de 2025, aos 92 anos. A venda de sua coleção na Sotheby’s totalizou US$ 575,5 milhões, com cinco obras de Klimt somando US$ 392 milhões.
2 – Number 7A, Jackson Pollock

Em 18 de maio de 2026, a Christie’s registrou uma das noites mais intensas de seus 259 anos de história: US$ 1,1 bilhão em obras vendidas em menos de três horas, com 97% dos lotes negociados. O motor da noite foi a coleção de S.I. Newhouse, magnata da mídia que comandou a Condé Nast por quatro décadas e formou ao longo da vida uma das coleções privadas mais significativas dos Estados Unidos. Os 16 lotes somaram US$ 630,8 milhões, superando amplamente a estimativa pré-venda. Combinado com vendas anteriores de partes da coleção, o total acumulado ultrapassa US$ 1 bilhão, tornando-a a segunda coleção privada mais cara já leiloada, atrás apenas da de Paul Allen, cofundador da Microsoft, que rendeu US$ 1,5 bilhão numa única noite em 2022.
O lote principal era o “Number 7A” (1948), apresentado pela Christie’s como o último “drip painting” de Pollock ainda em coleção particular e o primeiro grande exemplar da técnica a ser leiloado desde 1961. A tela foi criada quando o artista tinha 36 anos, no chão de um celeiro em East Hampton. Depois de passar pelas mãos do fotógrafo Herbert Matter, para quem Pollock a presenteou, e dos colecionadores Kimiko e John Powers, a obra foi adquirida por Newhouse em 2000. A última vez que o público a viu foi em 1977, numa exposição no Whitney Museum. Depois de uma disputa de sete minutos entre seis licitantes, com lances em incrementos de US$ 1 milhão, o martelo caiu a US$ 157 milhões – US$ 181,2 milhões com taxas, quase três vezes o recorde anterior do artista, de US$ 61,2 milhões, estabelecido em 2021.
3 – Danaïde, Constantin Brâncuși

Da mesma coleção Newhouse, o busto em bronze dourado “Danaïede” (c. 1913) – o único exemplar com patina dourada ainda em coleção particular – foi arrematado por US$ 107,6 milhões, tornando-se a segunda escultura mais cara já vendida em leilão, atrás apenas do “Homem que Aponta”, de Alberto Giacometti, vendido por US$ 141,3 milhões em 2015. Newhouse havia adquirido a obra por US$ 18,2 milhões em 2002, quando o resultado já era recorde para uma escultura. A noite incluiu ainda um recorde para Joan Miró: seu “Portrait de Madame K.” (1924), pintado no mesmo ano em que André Breton publicou o Manifesto Surrealista, foi arrematado por US$ 53,5 milhões, mais do que dobrando a estimativa baixa de US$ 25 milhões.
4 – No. 15 (Two Greens and Red Stripe), Mark Rothko

A temporada de maio também foi marcada pela chegada ao mercado de três obras da coleção de Agnes Gund, ex-presidente do MoMA entre 1991 e 2002 e uma das figuras mais influentes do mundo da arte americana nas últimas décadas. Gund morreu em setembro de 2025 aos 87 anos, e ao longo da vida doou mais de 1.800 obras a instituições, além de vender sua tela mais preciosa – um Lichtenstein – por US$ 165 milhões para financiar um fundo de reforma da justiça criminal. As três obras que chegaram à Christie’s em maio eram peças que ela manteve em sua casa no Upper East Side por décadas e que raramente ou nunca haviam sido vistas publicamente.
O lote principal era o “No. 15” (Two Greens and Red Stripe) (1964), de Rothko, que Gund adquiriu diretamente do artista em seu ateliê em 1967 e que nunca havia saído de seu apartamento, a não ser por um breve empréstimo de um mês ao Cleveland Museum of Art em 1972. A tela foi vendida por US$ 98,4 milhões, estabelecendo novo recorde para Rothko em leilão público, superando o resultado anterior de US$ 86,9 milhões, registrado na própria Christie’s em 2012. As três obras da coleção Gund totalizaram US$ 150,8 milhões.
O que esses resultados revelam
O que une essa sequência de vendas é o perfil das coleções. Lauder, Newhouse e Gund são três nomes que definiram o mercado e as instituições de arte americanas por meio século, e cujas coleções chegam ao circuito pela primeira vez após suas mortes. Para muitos observadores do mercado, o sucesso de obras de alto valor tende a energizar o mercado em outros segmentos, e o recorde do Klimt em novembro, segundo analistas, melhorou o ânimo geral de compradores e vendedores ao longo dos meses seguintes. O apetite existe, os compradores existem, e, pelo menos neste momento, as coleções que chegam ao mercado têm a qualidade para sustentar a demanda.