Quais pavilhões vale a pena ver na 61ª Bienal de Veneza?

Oito pavilhões para acompanhar numa edição que, antes mesmo de abrir, já é marcada por incertezas

 

A 61ª Bienal de Veneza abre em 9 de maio com um título que já é, de saída, um pontapé de segundas intenções: “In Minor Keys” — Em Tons Menores. Depois de edições que apostaram em gestos monumentais e narrativas de ruptura, a Bienal de 2026 anuncia uma escala de fraturas históricas silenciosas, micro-narrativas e sensibilidades políticas mais sutis.

A edição chega marcada por conflitos geopolíticos relacionados à Rússia, Israel, Irã e Finlandia, bem como pela morte de Koyo Kouoh, curadora nomeada para dirigi-la, que faleceu em maio de 2025 sem ter tempo de anunciar sequer o título da mostra. A Bienal será realizada segundo a visão que ela deixou e com o peso simbólico de uma mostra que já carrega a marca da sua ausência.

O que os pavilhões nacionais anunciam, no entanto, é uma edição viva e conceitualmente afinada com o tom proposto. De Matías Duville cartografando nações instáveis em sal e carvão na Argentina a Lubaina Himid revisando quatro décadas de apagamento no pavilhão britânico, ou Armen Agop propondo o silêncio como método no Egito a Amina Agueznay transformando o limiar em conceito arquitetônico no pavilhão inaugural de Marrocos — o que se desenha é uma Bienal que desconfia das vitrines e aposta em espaços de memória, cuidado e revisão histórica. Abaixo, o AQA apresenta os pavilhões que mais parecem valer uma boa atenção.

 

Argentina – Matías Duville

No pavilhão argentino, Matías Duville transforma o desenho em território caminhável, deslocando o gesto gráfico da superfície bidimensional para uma cartografia de sal branco e carvão triturado, ativada pela circulação do público em Monitor Yin Yang. Ao substituir o papel por materiais carregados de temporalidade – o sal como resíduo de oceanos ancestrais, o carvão como matéria orgânica convertida em energia –, o artista encena uma paisagem de desolação controlada, em que cada pegada reescreve o mapa e torna o próprio chão um palimpsesto geológico e político. A escolha é exemplar da edição: um pavilhão que não oferece uma imagem pronta da nação, mas um terreno instável onde a imaginação do visitante, a história ambiental e o presente de incertezas se acumulam em camadas.

 


Reino Unido – Lubaina Himid

O pavilhão britânico chega a Veneza com uma das escolhas mais carregadas de significado simbólico da edição. Lubaina Himid, nascida em Zanzibar em 1954 e criada no Reino Unido, é uma das figuras centrais do movimento Black British Art que emergiu nos anos 1980 e que, por décadas, operou às margens das instituições que agora a celebram. Pintora, ceramista e ativista cultural, sua obra atravessa quatro décadas de investigação sobre presença negra na história da arte europeia, sobre o que é apagado dos arquivos e sobre como a pintura pode funcionar como ato de restituição. Em Veneza, a expectativa é que o pavilhão opere nessa mesma chave — menos como vitrine nacional e mais como revisão do que a própria Bienal, ao longo de seus mais de cem anos de história, escolheu não ver.

 


Canadá – Abbas Akhavan

O pavilhão do Canadá, representado por Abbas Akhavan, opera na chave dos deslocamentos geopolíticos e da arquitetura como dispositivo de poder, reforçando a dimensão espacial da edição. Nascido em Teerã e baseado entre Montreal e Berlim, o artista construiu uma prática que responde às características específicas de cada local – arquiteturas, economias e fluxos humanos –, explorando como a política atravessa o desenho de jardins, interiores domésticos e ruínas institucionais. Em Veneza, essa abordagem promete transformar o pavilhão numa espécie de estudo de caso sobre como se territorializam conflitos e assimetrias, ecoando tanto as tensões globais quanto a própria história da Bienal como espaço de representação nacional.

 


Egito – Armen Agop

Já o Egito aposta em um gesto radicalmente concentrado com Armen Agop e seu Silence Pavilion: Between the Intangible and the Tangible, um projeto que reivindica a tradição de uma arte mística voltada ao invisível. Pintor e escultor nascido no Cairo, Agop trabalha a partir da economia de meios e da repetição meditativa, criando superfícies quase ascéticas que convidam à desaceleração e à percepção do imperceptível – uma postura frontalmente anti-espetacular em meio à saturação visual da Bienal. Nesse contexto, o silêncio proposto pelo pavilhão egípcio não é ausência, mas um método de atenção: a tentativa de sintonizar o visitante com escalas temporais e espirituais que escapam à cronologia acelerada da cultura global.

 


França – Yto Barrada

O pavilhão francês, com Yto Barrada, condensa duas décadas de uma prática que vai da fotografia e do cinema à escultura, aos livros de artista e a iniciativas para-institucionais, sempre orbitando em torno de histórias menores, geopolíticas fronteiriças e pedagogias alternativas. Nascida em Paris e criada em Tânger, Barrada foi escolhida por um júri que destacou sua capacidade de reunir comunidades artísticas e sociais distintas na busca por “uma nova utopia”, o que a aproxima diretamente do tom menor, mas insistentemente político, da edição. Se a Bienal de 2026 parece desconfiar das grandes narrativas, o projeto francês tende a mostrar como estruturas de apoio, jogos educativos e arquivos afetivos podem ser ferramentas para imaginar formas de futuro em escala humana.

 


Alemanha – Sung Tieu e Henrike Naumann

O pavilhão alemão, assinado por Sung Tieu e Henrike Naumann sob curadoria de Kathleen Reinhardt, talvez seja um dos exemplos mais claros de como a edição mobiliza o passado recente como campo de disputa. Tieu, nascida no Vietnã, vem examinando nas suas instalações a violência e a paranoia incrustadas em arquiteturas burocráticas supostamente neutras, enquanto Naumann constrói ambientes que lembram salas de estar e showrooms, usando mobiliário como índice das transições entre socialismo real, neoliberalismo e extremismos contemporâneos. Juntas, elas transformam o pavilhão em um cenário ambíguo, onde o design doméstico e o vocabulário corporativo expõem fantasmagorias de responsabilidade histórica, agência individual e nostalgia autoritária – temas que ressoam fortemente na Europa de 2026.

 


Marrocos – Amina Agueznay

Estreando com pavilhão oficial próprio, Marrocos escolhe Amina Agueznay para ancorar um projeto profundamente enraizado em saberes artesanais e arquiteturas vernaculares, mas atento às negociações contemporâneas de identidade e território. Formada em arquitetura em Washington e atuante como designer de joias, a artista desenvolveu uma prática multimídia em colaboração com artesãs e artesãos marroquinos, rearticulando técnicas tradicionais em instalações que tensionam o limite entre ornamento e estrutura. Em Veneza, o projeto Asǝṭṭa propõe o pavilhão como limiar – um espaço limítrofe entre dentro e fora, passado e futuro, local e global –, fazendo do threshold não apenas metáfora, mas condição concreta para pensar o lugar de Marrocos na cartografia da arte contemporânea.

 


Coreia do Sul – Goen Choi e Hyeree Ro

Sob o título provisório Liberation Space, o pavilhão da Coreia do Sul, concebido por Binna Choi com as artistas Goen Choi e Hyeree Ro, reimagina o edifício como monumento vivo, ao mesmo tempo fortaleza e ninho. Ao investir em “diálogos material-corpo”, o projeto pretende abordar tensões sociais, memórias de mobilidade e exílios, mas também solidariedades emergentes, transformando o pavilhão em espaço fluido de cuidado e imaginação compartilhada. Em vez de um monumento fixo, o que se anuncia é um contra-monumento permeável, em que superfícies, objetos e presenças humanas reposicionam a arquitetura como mediadora das fraturas da Península Coreana e das dinâmicas migratórias em escala global.