
O calor da SP–Arte já está aclimatado e a feira volta a condensar em poucos dias uma amostra do que tem sido produzido e negociado em artes visuais no país. Mas, em meio à profusão de estandes, a curadora Marina Frúgoli aceitou a tarefa ingrata de escolher alguns destaques para quem prefere ver menos coisas, mas com a devida calma.
A partir dos catálogos de obras enviados pelas galerias, Marina elegeu três estandes que, cada um à sua maneira, apostam na convivência entre gerações, na fricção de linguagens e na atualização de narrativas históricas. Não querendo dar conta da feira inteira – mesmo porque a última coisa que Marina parece querer ser é enciclopédica –, o recorte funciona como um roteiro possível para atravessar o pavilhão sem se perder por completo.

Albuquerque Contemporânea – Encontro da velha-guarda com a juventude
A Albuquerque Contemporânea chega à SP–Arte com um projeto coletivo que assume o encontro entre jovens artistas e nomes consagrados do circuito brasileiro. No estande D09, os trabalhos de Alan Fontes, Chris Tigra, Claudia Jaguaribe, Dyana Santos, Froiid, João Castilho, José Bechara, Mariannita Luzzati, Mateus Moreira, Nuno Ramos, Raul Mourão, Tatiana Blass e Waltercio Caldas compartilham o mesmo espaço, como quem monta uma sala de estar em que gerações distintas dividem a mesa de centro.
Se a presença de José Bechara, Nuno Ramos, Tatiana Blass e Waltercio Caldas é o eixo gravitacional do estande – aproximando experimentos recentes de uma história da abstração e da escultura brasileira que já se desdobrou em bienais e museus –, as pesquisas mais jovens, ao lado deles, dão vapor para uma conversa mais longa naqueles metros quadrados.
“A Albuquerque Contemporânea reúne uma seleção cuidadosa de trabalhos de artistas de diferentes gerações. Destaco nomes já renomados, como Waltercio Caldas, Tatiana Blass e Nuno Ramos, ao lado de artistas emergentes da cena de Minas Gerais, como Froiid e Dyana Santos. O destaque para a galeria se justifica pela qualidade da seleção, que considero muito cuidadosa e bem-feita”, conta Marina.
![Waltercio Caldas. [Detalhe] Ainda não, 2023. Obra presente no estande da Albuquerque Contemporânea.](https://artequeacontece.com.br/wp-content/uploads/2026/04/Captura-de-tela-2026-04-02-224042-300x209.png)
Galeria Marilia Razuk – Calfuqueo vem primeiro
Na Galeria Marilia Razuk, o recorte curatorial parte de um encontro entre artistas latino-americanos emergentes e consagrados, com ênfase nas relações entre paisagem, recursos naturais e imaginários políticos. O texto da galeria fala em “diversidade de narrativas” e “acompanhamento contínuo” das trajetórias (o que é a cara de texto de release), mas que aqui parece encontrar concretude no conjunto dos trabalhos selecionados.
“No estande da Marilia Razuk, tem um destaque para a produção da Seba Calfuqueo, uma artista Mapuche, que vai mostrar trabalhos já apresentados na Bienal de Bogotá de 2025, mas exibidos pela primeira vez no Brasil. Além da relevância do trabalho dela e da chance de vê-lo aqui, acho interessante como o estande articula relações com outros artistas representados pela galeria, como Thiago Rocha Pitta, Carolina Colichio e Maria Andrade”, explica a curadora.

Vermelho – Peso conceitual, força habitual
O estande da Vermelho aposta em uma combinação de peso histórico e fôlego conceitual, com novas séries de Claudia Andujar, obras de Detanico e Lain, trabalhos de Dora Longo Bahia, entre outros. O conjunto desenha um percurso que vai da experiência de estrada nos anos 1970 às reconfigurações de mapas e monumentos no presente. A galeria, assim, deve trazer uma cartografia afetiva e política em que carros, mapas e memoriais servem de suporte para disputar narrativas de modernidade, resistência e utopia.
O estande da Vermelho está entre as indicações de Marina justamente “muito por conta do compromisso que a galeria consegue manter a longo prazo com artistas que trabalham questões conceituais e a dimensão política também dos trabalhos, sem deixar a questão estética e a beleza em segundo plano. Destaco alguns nomes como Mônica Nador, Eustáquio Neves, Cláudia Andujar e Ximena Garrido-Lecca.”

O que mais a Marina acha que você deve ver?
Além dos três estandes escolhidos a partir de material prévio, Marina traz duas apostas no escuro: os estandes do Solar e da Salar – e isso sem fazer trocadilho. Ou seja: apesar de não ter tido acessos aos previews, Marina faz as indicações complementares do Solar [ex-dos Abacaxis] e da Salar Galería de Arte.
“No caso da Salar, é uma galeria boliviana que costuma trazer bons artistas da Bolívia, e que temos pouco acesso no Brasil. Então, acho que pode ser uma boa chance de contato com produções muito interessantes da cena contemporânea. E o Solar — antes Solar dos Abacaxis — entra como aposta por conta da excelente qualidade das exposições que vem realizando no último ano, com nomes como Luiz Paulo, Bizil e Castiel Vitorino Brasileiro.”
E vale sempre lembrar que, na hora de montar o roteiro de visita, o recomendado é ainda assim guardar tempo e fôlego às paradas não planejadas. Porque se as prévias ajudam a orientar alguma coisa em meio ao amontoado, são os encontros imprevistos que mais costumam trazer boas lembranças depois que as luzes da feira já estão apagadas.