
A galeria Quadra apresenta Five to Nine, projeto individual de Thomaz Rosa, reunindo cerca de 30 pinturas inéditas produzidas entre 2023 e 2025. O projeto marca um momento de condensação poética e formal em sua trajetória, em que o céu se afirma como elemento recorrente, mas não como tema fechado: “Os céus me interessam não como metáfora, mas como esse lugar onde tudo está em trânsito — as nuvens mudam, se desfazem, se sobrepõem. Gosto de pensar que pintar também é isso”, afirma o artista.
Composição e desvio convivem de maneira orgânica em sua pintura. Ao lado de superfícies que evocam atmosferas e paisagens, Thomaz insere objetos mundanos — pregos, linhas, presilhas, pequenas latas — que rompem a ilusão do plano e colocam em crise as hierarquias do olhar. As pinturas tensionam o campo pictórico a partir de gestos díspares: borrões, diagramas, anotações, manchas, formas geométricas, elementos gráficos e figuras quase desaparecidas se sobrepõem, instaurando dinâmicas entre o material e o imaterial, o visível e o latente.
A exposição evidencia o caráter processual da obra de Rosa, que concebe a pintura como espaço expandido de pensamento. “Acho que sempre estive interessado em tratar a história da arte como matéria. Para mim, um prego ou uma referência ao Constable têm o mesmo peso dentro da pintura. A escolha está mais na relação que cada coisa estabelece com o todo”, comenta. A materialidade da tinta, os resíduos do gesto e os modos de composição não obedecem a um estilo único, mas operam em variação: há tensão, humor e ambiguidade entre o planejamento e o acidente, a construção e o desvio.
Parte importante da mostra se dedica ao que o artista chama de “notações visuais” — fragmentos, estruturas gráficas e campos de anotação que remetem a cadernos, folhas soltas, esboços ou pequenos pensamentos pintados. Essa forma de pensar em série, não como repetição, mas como ritmo, aparece como uma constante desde suas primeiras exposições: “Nunca pensei em série como um conjunto fechado. Pra mim, é sempre um modo de acompanhar o tempo das coisas, o tempo da imagem se formando.”
A exposição, que conta com texto curatorial da poeta Marília Garcia, também inclui a publicação de uma entrevista entre Thomaz Rosa e os artistas Bruno Dunley e Anderson Godinho — ambos interlocutores recorrentes de sua trajetória.
Thomaz Rosa é graduado em Artes pela UNESP, em São Paulo. Entre suas exposições individuais recentes, destacam-se Conjuntos (Castiglioni Fine Arts, Paris, 2024), Um de Um Par / Uno di Una Coppia (Castiglioni, Milão, 2023), A volta da sorte (Quadra, São Paulo, 2023) e Resenha (Quadra, Rio de Janeiro, 2021). Participou também de diversas mostras coletivas, como De viés (Quadra, Rio de Janeiro, 2024), Pessoas negras são o silêncio, eles não podem entender (GDA, São Paulo, 2024), Refundação (Ocupação Nove de Julho, São Paulo; Museu da Inconfidência, Ouro Preto, 2023) e Setas e turmalinas (Casa de Cultura do Parque, São Paulo, 2022). Sua obra integra a coleção do Museu de Arte do Rio desde 2024.
Textos: Marília Garcia, Bruno Dunley e Anderson Godinho
